O que acontece com um leitor quando ele procura o próprio rosto nas páginas e não o encontra?
Se você foi uma criança que se via nos livros, talvez nunca tenha reparado nisso. Eu reparei, e há uma menina que nomeia por que isso importa. No primeiro romance de Toni Morrison, meu livro favorito, a menina reza todas as noites para acordar com olhos azuis. Chama-se Pecola, é negra, é pobre, e cresceu convencida de que é feia.
O raciocínio dela tem uma lógica cruel e perfeita: se os olhos fossem diferentes, ela seria diferente, e então talvez fosse amada. O Olho Mais Azul, o livro que abriga esta personagem, não fala apenas de uma criança que quer olhos azuis. Fala de um mundo inteiro que ensinou essa criança a se querer apagada.
E esse mundo não age só pela violência escancarada. Age, sobretudo, pelo que oferece para ela olhar, admirar e desejar. Bonecas louras, atrizes-mirim de cachos dourados, um repertório de imagens onde ela nunca cabe. Anos depois, Ralph Ellison daria a essa mesma ferida o seu horizonte adulto em Homem Invisível, o romance de um homem negro que não é enxergado por ninguém, como fosse feito de um material que a sociedade decidiu não ver.
A menina que não se encontra nas páginas é a mesma que, adulta, corre o risco de não ser vista em lugar nenhum.
Trago a obra Pecola para uma conversa sobre sala de aula porque ela nomeia com precisão uma pergunta que muito educador já enfrentou, mesmo sem formulá-la assim: em quem a criança se reconhece quando lê? A pesquisadora americana Rudine Sims Bishop ofereceu uma imagem que ficou. De acordo com ela, os livros podem ser espelhos ou janelas.
Espelho é quando a criança se vê na página, quando a história confirma que alguém como ela existe, importa e pode ser protagonista. Janela é quando ela vê o outro, quando o livro a leva para uma vida que não é a sua e aumenta a dimensão do mundo dela. Uma estante saudável precisa das duas coisas, assim como precisamos, literalmente, de espelhos e janelas.
O problema é que, durante muito tempo, uma parte enorme das crianças brasileiras recebeu quase só janelas. Passou a infância inteira lendo sobre gente que não se parecia com ela, e raramente uma vez se encontrou no espelho.
Isso não é um detalhe de gosto. A criança que nunca se lê aprende, sem que ninguém precise dizer em voz alta, que histórias são para os outros. Que o lugar dela na literatura é o da coadjuvante, quando muito. Que os heróis, os inventores, os aventureiros e as princesas têm um rosto, e esse rosto não é o dela. É uma lição que ninguém ministra e que, mesmo assim, fica.
Qualquer educador de anos iniciais reconhece a cena, a criança que folheia um livro e para de repente numa ilustração, o dedo em cima de um personagem parecido com ela, o pequeno espanto de quem descobre que também cabe ali. Esse instante não é enfeite pedagógico.
É o momento em que a leitura deixa de ser tarefa e vira assunto pessoal. Formar leitor também é isso, esse acúmulo silencioso de mensagens sobre quem pertence ao mundo dos livros, especialmente na leitura nos anos iniciais. E aqui a boa notícia é concreta, tem nome e tem obra, porque nunca houve tanta literatura infantil capaz de devolver esse espelho.
Leitura nos anos iniciais: quando a criança se reconhece nos livros
Marian Wright Edelman, ativista norte-americana, foi outra que tornou muito clara a consequência de nos reconhecermos, de termos estes espelhos à disposição em nossas vidas. E como eles podem (ou não), virar trampolim para os saltos que queremos dar. Ela falou “Você não pode ser aquilo o que não pode ver”.
Penso em Kiusam de Oliveira, doutora em Educação e uma das vozes que ajudaram a implementar nas escolas a lei que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira. No seu O Mundo no Black Power de Tayó, o cabelo crespo de uma menina deixa de ser motivo de vergonha e vira o centro de uma celebração. Penso em Otávio Júnior, que cresceu no Complexo do Alemão, montou a primeira biblioteca da favela e escreve para que a criança da periferia se veja como personagem digno da própria história.
Não por acaso o seu Da Minha Janela, que olha o mundo a partir de onde ele mesmo cresceu, ganhou o Prêmio Jabuti. Penso em Sonia Rosa, que aprendeu com a própria mãe, uma grande contadora de histórias sem livro na mão, que narrar é uma forma de amor, e que há décadas povoa a literatura brasileira de meninos e meninas negros, como em Os Tesouros de Monifa, no qual uma garota reencontra as próprias raízes numa herança que atravessou o Atlântico.
A americana Jacqueline Woodson conta a própria infância negra em Sonhos de Uma Menina Negra, livro que foi altamente recomendável pelo Prêmio FNLIJ 2025. E faz isso com uma delicadeza que nunca vira lição de moral. E Vashti Harrison, primeira mulher negra a vencer a medalha Caldecott, o mais importante prêmio do livro ilustrado, mostra em Grande o quanto uma palavra dita a uma criança pode ferir ou curar. São livros que não pedem licença. Chegam como espelho e, para quem não é aquela criança, funcionam também como janela.
Espelhos e janelas na formação de leitores
O que precisa ficar claro é que oferecer esses livros não é gesto de bandeira, é gesto de formação. Uma criança que se encontra na página lê com mais fome, porque a leitura passou a ter algo a ver com ela. E uma criança que encontra o outro na página, que atravessa a janela e conhece uma infância diferente da sua, aprende cedo que o mundo é maior do que o próprio quintal. Vale dizer com todas as letras que isso serve para todas as crianças, não apenas para as negras.
A criança não-negra que lê Tayó ou Woodson não perde nada, ganha uma janela, a chance de reconhecer no outro uma humanidade inteira, e é assim que se forma gente menos assustada com a diferença. As duas coisas fazem leitor. As duas coisas são trabalho de quem media a leitura, sobretudo na leitura nos anos iniciais, e esse trabalho começa numa decisão que parece banal, a de qual livro colocar na estante, na roda, na mão da criança.
Toni Morrison escreveu Pecola como um aviso sobre o que acontece quando faltam os espelhos, porque a autoimagem de uma criança se constrói, em boa parte, com o material que os adultos colocam ao redor dela (e adulto, aqui, é todo mundo, a família, a televisão, a professora que escolhe o livro, ninguém está de fora dessa conta). bell hooks, que pensou a vida inteira sobre imagem e representação, sustentava justamente isso, que aprender a ver a si mesmo é um processo que a cultura ao redor alimenta ou sabota desde muito cedo.
A escola é um dos lugares onde isso pode ser corrigido, com propósito, curadoria e intencionalidade pedagógica.
Diferente do tempo de Pecola, hoje não faltam livros que permitam às crianças se reconhecer nas histórias. Muitos deles já estão ao alcance dos educadores, nas bibliotecas, nos catálogos e nas listas de leitura. O desafio é perceber qual aluno ainda procura esse espelho e garantir que ele o encontre na história certa.



