Literatura Moderna

Da tela e dos quadrinhos ao livro: a imagem como porta de entrada para a leitura 

Filmes, séries e histórias em quadrinhos podem aproximar leitores da literatura porque despertam o interesse por novas narrativas.

Tela e livro caminham juntos 

Passei a vida inteira transitando entre a página e a tela, escrevendo para as duas. Nesse caminho, encontrei uma discussão antiga que nunca fez muito sentido para mim: a disputa entre o livro e a imagem. 

Ela aparece na sala dos professores, no almoço de domingo e na reunião de pais. Surge, por exemplo, naquela frase cansada de que a criança só quer saber de tela, dita como se estivéssemos diante de uma perda sem volta. Esse pensamento parte do princípio de que cada minuto diante de um filme é um minuto roubado da leitura. 

Desconfio dessa conta. Muita gente chegou ao livro justamente porque a imagem abriu a porta. Talvez você também. 

O cinema leva o público até a literatura 

Pense em Se a Rua Beale Falasse. O romance publicado por James Baldwin em 1974 ganhou uma nova edição brasileira em 2019, impulsionada pela estreia do filme de Barry Jenkins, que deu a Regina King o Oscar de melhor atriz coadjuvante. 

A primeira tiragem saiu com uma sobrecapa baseada no pôster do filme. É um detalhe pequeno, mas que diz muito. O cartaz do cinema virou capa de livro. A tela foi, literalmente, vestir a página. 

Quem saiu da sessão com a história de Tish e Fonny ainda viva na memória encontrou, na livraria, o caminho de volta para a voz de Baldwin. Uma voz que nenhuma câmera consegue registrar por inteiro. 

O próprio título guarda uma camada que apenas a página entrega por completo. A Beale Street fica em Memphis, berço do blues. Para Baldwin, todo negro nascido nos Estados Unidos nasceu, de algum modo, naquela rua. O filme sugere essa ideia. O livro a desenvolve com a cadência de quem escreve como se cantasse. 

O mesmo movimento aconteceu com Meio Sol Amarelo, de Chimamanda Ngozi Adichie, levado ao cinema por Biyi Bandele em 2013. Também ocorreu, de forma ainda mais curiosa, com A Invenção de Hugo Cabret, de Brian Selznick, adaptado por Martin Scorsese em 2011. 

O livro conta, por meio de quase trezentas ilustrações, a história de um menino escondido em uma estação de Paris e do cineasta Georges Méliès. Foi o primeiro romance a ganhar a Medalha Caldecott, prêmio voltado aos livros ilustrados. É um livro feito de imagens, sobre a invenção do cinema, que virou filme e levou muitas crianças de volta ao livro. 

Adaptações podem funcionar como convite à leitura 

Há quem resista às adaptações, claro. J.D. Salinger nunca permitiu que O Apanhador no Campo de Centeio virasse filme. Ele tinha suas razões. Em 1949, um de seus contos foi levado ao cinema de uma maneira que o deixou tão desgostoso que ele prometeu nunca mais vender uma história para as telas. Cumpriu a promessa até morrer. 

Respeito o gesto e acho que ele revela outro lado dessa discussão. Holden Caulfield sobrevive há mais de setenta anos apenas na página. É a prova de que o livro não precisa da imagem para existir. 

Mas a maioria das histórias não tem a sorte de se tornar um clássico. Para elas, e para os leitores que ainda não chegaram até elas, a adaptação pode funcionar como um convite. 

Filme e livro não disputam necessariamente o mesmo leitor. Um pode levar ao outro, desde que alguém construa essa ponte. 

Uma história contada em diferentes linguagens 

Poucos casos representam tão bem essa relação quanto Dois Irmãos, de Milton Hatoum. O romance acompanha os gêmeos Yaqub e Omar em uma Manaus em decadência. 

Em 2015, a história virou uma HQ criada pelos também gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá. A adaptação recebeu o Eisner, um dos principais prêmios dos quadrinhos. Em 2017, a obra também ganhou uma minissérie dirigida por Luiz Fernando Carvalho. 

É uma história contada em três linguagens, com três portas diferentes de entrada para o mesmo livro. 

O adolescente que dificilmente abriria o romance de Hatoum por obrigação pode chegar até ele pelas páginas desenhadas. Ao fazer esse caminho, talvez descubra que o texto original guarda camadas que nem os quadrinhos nem a televisão conseguiram alcançar. 

Assistir também requer leitura 

Há ainda um aspecto que costumamos esquecer quando tratamos a tela como inimiga: assistir também exige leitura. 

Uma criança acompanha uma série cheia de idas e vindas no tempo. Entende sozinha que determinada cena é uma lembrança. Percebe, pelo enquadramento, quem está mentindo. Ao fazer isso, já está lidando com elipse, flashback e ponto de vista, mesmo sem conhecer esses nomes. 

É um conhecimento narrativo construído no sofá. 

O trabalho de quem forma leitores começa quando reconhecemos esse conhecimento, em vez de desprezá-lo. A partir daí, podemos mostrar que o livro oferece uma aventura semelhante, mas com uma vantagem que nenhuma tela possui: no livro, quem dirige o filme é o próprio leitor. 

Histórias em quadrinhos também formam leitores 

Ainda escuto nas escolas a ideia de que os quadrinhos são um degrau inferior, uma etapa que a criança deveria superar antes de chegar ao “livro de verdade”. Discordo com toda a força. 

Ler quadrinhos é fazer duas leituras ao mesmo tempo. É ler a palavra e a imagem, o que está escrito no balão e o que aparece nos quadros. Muitas vezes, o sentido está justamente na relação entre essas duas linguagens. 

É uma leitura que exige atenção dobrada, algo que muitos textos corridos nem sempre pedem. 

Marcelo D’Salete, que além de quadrinista é professor na Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da USP, passou mais de uma década pesquisando o Quilombo dos Palmares para criar Angola Janga. A obra venceu o Prêmio Jabuti em 2018. No mesmo ano, Cumbe, outro trabalho do autor, recebeu o Eisner. 

Marcello Quintanilha, de origem operária em Niterói, foi premiado duas vezes no Festival de Angoulême, o maior evento de quadrinhos do mundo. Na segunda ocasião, recebeu o prêmio principal por Escuta, Formosa Márcia. Outra obra sua, Tungstênio, virou filme pelas mãos de Heitor Dhalia, fazendo o caminho do desenho para a tela. 

O espanhol Miguelanxo Prado criou em Traço de Giz uma das obras mais premiadas dos quadrinhos europeus. Vencedor do prêmio de melhor álbum estrangeiro em Angoulême, o livro se aproxima de um romance de atmosfera, no qual o leitor precisa decifrar aquilo que não está escrito. 

Anos depois, Prado levou o próprio traço para o cinema de animação em De Profundis. Assim, mostrou que o trânsito entre a página e a tela acontece nos dois sentidos. 

Alison Bechdel, por sua vez, levou sete anos para narrar em Fun Home a relação com o próprio pai. A história é contada em desenhos atravessados por referências a Proust, Joyce e Fitzgerald. Em 2006, a revista Time elegeu a obra como o melhor livro do ano. 

Como transformar filmes e HQs em pontes para os livros 

Quem forma leitores não precisa escolher um lado nessa disputa, porque ela nunca existiu de verdade. 

Longe de afastar o leitor, a arte sequencial dos quadrinhos muitas vezes o conduz até a literatura em texto. O que falta, quase sempre, é alguém que transforme a sessão de cinema ou a HQ guardada na mochila em uma ponte. 

Essa aproximação pode começar com uma atividade simples. O professor pode exibir uma cena e, logo depois, ler em voz alta o trecho do livro que deu origem a ela. A turma pode observar o que a câmera escolheu mostrar e o que o texto preferiu apenas sugerir. 

Nesse encontro nasce a pergunta capaz de levar um leitor da tela para a página: o que ficou de fora? 

Toda adaptação deixa alguma coisa para trás. Ir em busca do que ela deixou talvez seja o primeiro gesto de quem lê. 

Sobre o autor

Alê Garcia

Literatura Moderna

Alê Garcia é autor de três livros, finalista do Prêmio Jabuti e vencedor do Prêmio Fundação Biblioteca Nacional. Construiu uma obra que transita entre a ficção e o ensaio, e prepara sua estreia na literatura infantil. Escritor, criador de conteúdo e publicitário, foi reconhecido pela Forbes como um dos vinte criadores negros mais inovadores do Brasil e pela Bantumen como uma das cem personalidades negras mais influentes do mundo lusófono. Em seu canal no YouTube e redes sociais, transforma a leitura de cinema, séries, música e literatura em pensamento crítico sobre cultura e sociedade, sempre a partir de uma lente negra. No Redes Moderna, escreve sobre como se forma um leitor, e sobre tudo que cabe nesse caminho: livros, cinema, música e memória.