Antes de compreender o significado das primeiras letras, nos emocionamos com as primeiras histórias e nos enternecemos com os primeiros sons.
Eu era um leitor muito antes de saber ler. Com sorte, você também. Antes mesmo de aprender qualquer palavra, muito antes de vogais e consoantes, as histórias me chegavam por entonação. Que som ressoava alegria, que expressão entregava suspense, que tom anunciava o fim.
A oralidade como primeira escola da leitura
A leitura me chegou primeiro pelo ouvido. Era a história contada na cozinha, a fofoca repetida na mesa de domingo e, todos os dias, a música que embalava os sonos e criava trilha sonora para os sonhos e que, sem que fosse projeto deliberado de ninguém (éramos somente e sempre amantes de música lá na casa da minha infância; leitores amadores de livros esparsos; não, não era casa de literatos ou doutores), já me ensinava sobre rima, ritmo e a ideia de que as palavras podem guardar mundos.
Quando, finalmente, compreendi letras e suas junções me trouxeram significados, eu não começava do zero. Só fixava no papel a habilidade e o saber que já estavam impregnados em mim há bons anos.
Na maioria das vezes, entendemos a alfabetização como o marco zero do leitor. O instante em que ele nasce. Antes disso, como se só houvesse o silêncio. E, então: faz-se o leitor. Esta linha do tempo, simplista, apaga uma construção anterior que é decisiva. A criança que chega à Educação Infantil não chega como uma folha em branco esperando a primeira letra. Com ela, vem um repertório gigantesco de narrativas ouvidas, cantadas. Histórias que chegaram por outras mídias, através de métodos por vezes distantes da forma livro. Mas que se colam lá, no corpo e na alma da criança, formando o código que desde então lhe permite saber que histórias servem para alguma coisa, que histórias valem a pena. Que elas dão prazer ou medo ou riso. E esse saber prévio é o terreno no qual a leitura da palavra vai ou não florescer. Um saber que vem da oralidade.
Paulina Chiziane e a literatura que nasce da fogueira
A tradição oral africana compreendeu isso com uma profundidade que a literatura ainda está redescobrindo. A moçambicana Paulina Chiziane, primeira mulher a publicar um romance no seu país, quando lançou seu A Balada de Amor ao Vento, em 1990, declarou preferir outra definição da sua atividade: “Dizem que sou romancista e que fui a primeira mulher moçambicana a escrever um romance, mas eu afirmo: sou contadora de estórias, estórias grandes e pequenas. Inspiro-me nos contos à volta da fogueira, minha primeira escola de arte.” (Niketche: Uma História de Poligamia, Companhia das Letras, 2022). Ela escolhe se dizer contadora de histórias, e nisso ela se filia à mais antiga instituição literária da África, a do griô, o mestre da palavra dos povos da África Ocidental que há séculos guarda na memória a genealogia e a história inteira de um povo e a transmite de boca em boca. Chiziane vem de outra parte do continente, do sul banto de Moçambique, mas bebe da mesma fonte, a da história que se conta em voz alta antes de virar página.
A escrita de Paulina Chiziane é escrita, claro, mas guarda a cadência de quem conta em voz alta: a repetição que fixa, o provérbio que resume, o gesto de quem sabe que está diante de ouvintes e não apenas leitores. Ler Chiziane é lembrar, providencialmente, que o romance, essa forma tão letrada, tem uma avó que nunca precisou de alfabeto.
Mia Couto, conterrâneo dela, exerce um movimento parecido, mas escolhe desbravar outros caminhos. E faz isso com uma prosa que inventa palavras, torce a sintaxe, deixa a fala popular reorganizar a gramática, porque para Couto a língua viva é a língua falada. É aquela que muda na boca das pessoas antes mesmo de assentar no dicionário. Também ele, quando escreve, é a oralidade que dá o tom. Você sente o efeito de ouvir alguém, não decodificar um texto. E assim você se dá conta de como a fronteira entre contar e escrever é bem mais porosa do que a escola costuma supor. A história contada é matriz da leitura.
E isso, é preciso lembrar, não é uma delicadeza distante, coisa de literatura estrangeira. É parte da nossa formação. A minha foi assim, como contei antes, e boa parte do que hoje chamamos de cultura brasileira nasceu de gente que não escrevia e transmitiu tudo pela voz: os contos que atravessaram o Atlântico e viraram história de assombração no interior de nossos estados; as cantigas de roda que ninguém sabe quem inventou, porque foram inventadas por todos; os provérbios que repetimos sem saber que estamos citando séculos. Uma criança brasileira, mesmo a que nunca viu um livro em casa, já é herdeira dessa biblioteca oral imensa. E ela chega à escola falando uma língua que é, ela mesma, um universo. Então o trabalho não é preencher um vazio. É reconhecer o que já está cheio.
Para quem recebe uma criança de três, quatro, cinco anos, isso significa que grande parte do trabalho de formar um leitor acontece antes e ao lado da alfabetização, e não depois dela. Significa que a roda de história, a repetição de uma cantiga, o momento em que o educador conta em voz alta sem o livro na frente, olhando nos olhos, não são um aquecimento para a leitura de verdade. São leitura de verdade, na sua forma mais antiga. A criança que ouve muitas histórias aprende que o mundo é narrável, que as coisas têm começo, meio e sentido, que vale a pena acompanhar até o fim para descobrir o que acontece. Quando essa criança finalmente encontra a palavra escrita, ela já sabe o que procurar ali dentro. Já é leitora, só falta a técnica.
A cultura transmitida pela voz
Há uma diferença significativa no comportamento leitor de uma criança que foi submetida à narrativa contada e a que não foi. E não é sobre vocabulário apenas, embora também o seja. É de expectativa. Crianças acostumadas a ouvir histórias tendem a abrir um livro esperando que algo aconteça, e essa expectativa é metade da leitura. É o motivo da leitura. É a satisfação de continuar lendo. Ela se fica feliz com a espera, sabe que a paciência de cada virada de página é recompensada. Entende que um personagem no início pode ser outro no fim. Contar histórias é nivelar para cima. É dar a todas as crianças o repertório de expectativa que algumas trouxeram de casa e outras não.
Muitas das crianças da escola pública vêm de casas onde os livros são poucos, mas as histórias são muitas. Casas onde a avó conta, onde o alto e bom som da vizinhança narra, onde o que sai da TV, os sons da novela ou do telejornal, é motivo de comentários como quem analisa personagens. Tratar a oralidade como patrimônio é olhar para essas crianças e enxergar o que elas já trazem, em vez de só o que lhes falta. É partir da riqueza, não da ausência.
Uma criança que chega sabendo de cor a letra de uma música inteira já domina (ainda que não saiba o nome) metáfora, narrativa e memória. Cabe ao educador mostrar que aquilo que ela já faz com prazer tem parentesco direto com aquilo que os livros oferecem.
A primeira história de uma vida nunca vem impressa. As minhas não vieram. Vem na voz de alguém que ama aquela criança o bastante para inventar, repetir, exagerar, surpreender. É desse encontro, antes da cartilha, que nasce parte fundamental do desejo de ler.
Portanto, quem forma leitores nos primeiros anos não constrói do zero. Na verdade, cuida de uma semente que outras vozes já plantaram, e que só espera a palavra para virar, enfim, floresta.



