Voltar para o doutorado não foi uma decisão de carreira. Foi uma decisão metodológica.
Durante anos, atuei na interface entre educação, clínica e tecnologia. Desenvolvi ferramentas, observei resultados. Em muitos casos, funcionavam. Havia engajamento, melhoria de desempenho, respostas positivas de professores e famílias.
Quando a prática deixa de ser suficiente
Mas, com o tempo, surgiu um incômodo recorrente: eu não conseguia explicar, com precisão, por que funcionava nem, principalmente, por que, às vezes, não funcionava. A prática, por si só, tem um limite. Ela mostra o que acontece, mas nem sempre permite compreender o que está sendo medido, nem isolar as variáveis que explicam o resultado.
Quando uma criança melhora em uma tarefa, o que exatamente mudou? A habilidade-alvo? A familiaridade com o formato? A motivação? A velocidade de resposta?
Sem um modelo teórico consistente e sem instrumentos validados, qualquer resposta tende a ser mais interpretativa do que científica. Esse tipo de problema não aparece em manuais ou livros didáticos. Ele emerge na prática cotidiana.
Foi a partir desse ponto que o doutorado deixou de ser uma opção e passou a ser uma necessidade. Não para acumular conhecimento, mas para estruturar perguntas e testá-las com rigor.
Construir instrumentos de avaliação, por exemplo, exige mais do que criar boas tarefas. É necessário demonstrar que aquilo que está sendo medido corresponde, de fato, ao construto proposto. Isso envolve decisões sobre modelagem, definição de critérios de corte e interpretação dos dados.
Na sala de aula, muitas vezes utilizamos ferramentas sem esse nível de validação. E isso não decorre, necessariamente, de negligência, mas de lacunas na formação em análise de dados e psicometria.
O problema é que, sem esse cuidado, corremos o risco de tomar decisões baseadas em evidências frágeis. O doutorado, nesse sentido, não resolve a prática — mas qualifica o olhar sobre ela.
Há, também, um elemento pessoal nesse retorno. Iniciei um doutorado anos atrás, trabalhando com dosagem hormonal. Parte significativa dos dados foi perdida após uma falha de energia que comprometeu o armazenamento das amostras. O projeto foi interrompido.
Na época, a decisão de parar fez sentido. Hoje, olhando em retrospecto, percebo que aquela interrupção não eliminou as perguntas — apenas as adiou. Retomar o doutorado, quase quinze anos depois, tem menos a ver com recomeçar e mais com dar continuidade a um processo que, na prática, nunca deixou de existir.
Da observação à demonstração
A experiência acadêmica introduz um elemento pouco valorizado no cotidiano profissional: a necessidade de demonstrar, e não apenas observar. Isso não substitui a prática. Mas impõe um critério: aquilo que parece funcionar precisa, sempre que possível, ser testado, analisado e compreendido.
Para professores e profissionais da área clínica, essa discussão é mais próxima do que parece. Todos, em algum nível, trabalham com evidências — ainda que não formalizadas. Observam, comparam, ajustam estratégias. A diferença está no grau de sistematização dessas decisões.
Voltar para o doutorado foi, portanto, uma forma de lidar com esse limite. Não para substituir a prática, mas para torná-la mais precisa.
Um abraço,
Tiago Eugênio



