Na última quarta-feira, dia 5 de agosto, o Brasil conheceu mais sobre o estado de desenvolvimento de sua educação pública: o Ministério da Educação divulgou os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), bem como do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), de 2025.
Criado em 1990, o Saeb consiste em avaliações externas realizadas a cada 2 anos, nas áreas de Língua Portuguesa e Matemática, envolvendo alunos de 2º, 5º e 9º ano de Ensino Fundamental, bem como da 3ª série do Ensino Médio.
Em 2005, nasceu o Ideb, com o objetivo de estabelecer um índice único que permitisse retratar o avanço dos sistemas educacionais – levando em conta dados de fluxo (aprovação e reprovação), bem como de aprendizagem (o Saeb). A partir do Ideb foram estabelecidas metas para o sistema educacional de municípios e Estados.
Tanto o Ideb quanto o Saeb são pilares importantes da avaliação da saúde do sistema educacional – e os dados divulgados em 2025 são históricos em muitas dimensões, inclusive por marcarem o fim do ciclo de metas inicialmente proposto. Por fim, é tempo de balanço, e para isso se prestam as lentes clássicas do copo meio cheio e do meio vazio.
É claro, os resultados mostram que há uma longa jornada pela frente, a começar da própria reformulação dos indicadores. Tanto o Ideb como o Saeb mostram sinais de esgotamento e já não refletem as demandas das escolas do seu tempo.
É preciso lembrar que os pesquisadores da avaliação indicam, já há alguns anos, a necessidade de se renovar as matrizes curriculares do Saeb, bem como de elevar a régua de uma avaliação que já foi moderna, mas hoje se distancia de modelos internacionais.
Da mesma forma, o Ideb atingiu seu limite e não reflete mais os desafios dos sistemas educacionais, por exemplo, na diminuição das desigualdades intrínsecas (por exemplo, as desigualdades raciais). Além disso, muitas vezes os dados podem ser distorcidos, pois é mais fácil mexer no botão do fluxo (onde aprovação e reprovação podem ser políticas de critérios flexíveis) do que no da qualidade.
Os resultados também mostram que há razão para preocupação quando vemos que, no Ensino Fundamental Anos Finais, bem como no Ensino Médio, ainda estamos aquém das metas que esperávamos alcançar em 2021. No Ensino Médio, ou seja, no final da etapa básica, o IDEB ficou em 4,5, quando em 2021 a meta esperada era de 5,2. Em que pesem os efeitos da pandemia, que permanecem, o fato é que duas décadas depois da definição das metas ainda não chegamos a alcançá-las – no Ensino Médio, ainda estamos muito longe.
Na prática, isso significa que seguimos abandonando jovens à própria sorte em um mundo agora transformado pela inteligência artificial. Mal formados, com dificuldades básicas em Matemática e Português, terão mais dificuldades de encontrar um lugar na nova economia que surge.
Copo meio cheio
É possível olhar para o copo meio cheio? Sim – e o próprio noticiário de Educação após a publicação do Saeb, normalmente marcado pelas notícias ruins, desta vez surpreendeu, tanto pela repercussão como pelo próprio tom das análises, reconhecendo avanços.
Isso tem razão de ser. Antes de olhar para os bons resultados, é preciso lembrar que o simples fato de uma política pública educacional ter atravessado tantos governos deve ser motivo de reconhecimento.
Em um país com políticas frágeis, em que boas ideias são enterradas simplesmente por pertencer à gestão anterior, a permanência do Saeb – o Brasil foi um dos pioneiros no mundo, ao implantar um sistema nacional de avaliação – e do Ideb já é digna de nota.
Mais do que isso: esses indicadores tornaram-se indutores de políticas, o que permitiu avanços importantes. As metas do Ideb foram superadas nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, o que reflete uma mudança em curso no país. Garantir às crianças um bom começo, superando os desafios iniciais da alfabetização e também do aprendizado da Matemática, abre caminho para que aprendam mais ao longo da escolaridade. É preciso estimular os ciclos virtuosos, que se retroalimentam.
Mesmo quando não superou as metas, os resultados mostraram progresso, entre 2023 e 2025, e representam o topo da jornada desde o início da série história de 20 anos. Na rede pública, apenas entre 2023 e 2025, o Ideb subiu no Ensino Fundamental Anos Iniciais de 5,7 para 6,1; nos Anos Finais, de 4,7 para 5,0; e, no Ensino Médio, de 4,1 para 4,3.
Houve mudanças importantes no fluxo do sistema, por exemplo: nos últimos anos, o Brasil vem registrando uma diminuição da defasagem idade-série, ou seja, quando os alunos estão com 2 ou mais anos de diferença entre sua idade e a série em que deveriam estar. Isso é muito positivo, e também influenciou as notas do Ideb, principalmente nos Anos Finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio.
Houve avanços importantes também na aprendizagem. Segundo os novos dados divulgados, no 5º ano do Ensino Fundamental houve um aumento de 7,5 pontos em Língua Portuguesa e de 9,1 pontos em Matemática, quando se comparam com os dados de 2023.
No primeiro caso, o avanço ainda não bastou para produzir uma mudança entre os nove diferentes níveis de proficiência definidos na matriz de avaliação. Mas, em Matemática, sim – os alunos passaram, em média, do nível 4 para o 5.
Da mesma forma, no 9º ano, houve um pequeno avanço sobre 2023, com ganhos de 3,7 pontos em Língua Portuguesa e de 5,4 pontos em Matemática, também insuficientes para mover a escala.
No Ensino Médio, onde estão alguns dos principais desafios da Educação brasileira, também houve avanço. Em Língua Portuguesa, não foi suficiente para promover mudança de nível, mas em Matemática, sim – com avanço do nível 6 para o 7.
Por fim, vale notar que, pela primeira vez, o MEC avaliou também o Ensino Médio que optou pela modalidade Educação Profissional de nível Técnico (EPT), o que tende a se tornar um indicador importante da evolução da política introduzida com a reforma do Ensino Médio.
Como destaca a Nota Técnica do movimento Todos pela Educação, há razões para se considerar a divulgação dos resultados um passo importante – principalmente porque são dados que se generalizam por municípios, Estados e regiões, e diz respeito às três etapas avaliadas. Não se trata, portanto, de um crescimento isolado.
Da mesma forma, os resultados da aprendizagem mostram que o país, enfim, começa a recuperar os níveis pré-pandemia, embora em patamar baixo. O desafio agora é acelerar.



