Coluna Educação Inovadora

Valorizar professores é o primeiro passo para transformar a educação

A educação brasileira atravessa uma transformação profunda, impulsionada pela chegada de novas tecnologias, pela adoção de metodologias mais ativas e pelas mudanças no perfil dos estudantes. Em meio a esse cenário, um ponto se destaca como central: nenhum avanço será sustentável sem investimento consistente na valorização, na formação e nas condições de atuação dos professores.

A profissão docente, historicamente marcada por desafios estruturais, agora enfrenta uma dupla exigência: lidar com demandas educacionais cada vez mais complexas e, simultaneamente, incorporar inovação ao cotidiano escolar. Ou seja, assumir um papel ainda mais estratégico na construção de uma educação contemporânea.

Desafios da formação docente

Nas últimas décadas, pesquisas nacionais apontam fragilidades na formação inicial de professores e evidenciam a distância entre teoria e prática, a pouca vivência de metodologias ativas e a escassa integração com tecnologias educacionais. Segundo dados do INEP, mais de 60% dos cursos de licenciatura no país ainda mantêm currículos fragmentados e pouco conectados às necessidades reais das escolas.

Ao mesmo tempo, a formação continuada, embora presente em diversas redes, ocorre de forma pontual, muitas vezes desconectada do cotidiano dos docentes e sem garantia de acompanhamento ou aplicação prática. Esses desafios tornam-se ainda mais urgentes diante da expansão das tecnologias digitais, que exigem novas competências para ensinar e aprender. Portanto, pressionam as redes de ensino a revisarem modelos formativos.

A incorporação de inteligência artificial, plataformas adaptativas, ambientes virtuais imersivos e processos de personalização da aprendizagem redefine o papel do professor. Em vez de atuar apenas como transmissor de conteúdos, ele assume a posição de mediador, designer de experiências e orientador de processos investigativos. Assim, o curador de informações passa a integrar dimensões tecnológicas ao planejamento pedagógico com intencionalidade.

Formação, carreira e condições reais de trabalho

Isso exige domínio de competências digitais, capacidade de analisar dados educacionais, flexibilidade para testar novas metodologias e sensibilidade para integrar tecnologia sem perder a centralidade da relação humana. Contudo, essa transição só acontece quando redes oferecem formações consistentes, práticas e contextualizadas.

Redes que investiram nesse modelo, como o Ceará, o Paraná e o Rio Grande do Sul, registraram melhorias significativas na aprendizagem ao apostar em formações continuadas alinhadas ao currículo e acompanhadas de tutoria pedagógica reforçam a importância de políticas formativas duradouras.

Além da formação, a valorização docente envolve aspectos estruturais, como remuneração adequada, planos de carreira atrativos e condições dignas de trabalho. Estudos do Todos Pela Educação mostram que professores brasileiros ganham, em média, 30% menos do que outros profissionais com formação semelhante.

Essa defasagem contribui para a evasão da carreira, para o desinteresse de novos talentos e para o acúmulo de jornadas exaustivas, dificultando a inovação pedagógica. Em contrapartida, políticas de valorização implementadas em algumas redes — como progressão por desempenho formativo, gratificações por participação em projetos de inovação ou apoio à formação acadêmica — mostram impacto positivo no engajamento dos docentes e na permanência na carreira oferecem caminhos concretos para fortalecer a profissão.

Outro aspecto essencial é garantir que a inovação educacional não se restrinja ao uso de equipamentos. Experiências bem-sucedidas no Brasil revelam que, quando a formação favorece a prática — como oficinas mão na massa, grupos de estudos, projetos colaborativos e acompanhamento nas escolas —, os professores se sentem mais seguros para experimentar e adaptar estratégias à sua realidade.

Exemplos como os Centros de Inovação da Educação Básica Paulista do Estado de São Paulo, os Ginásios Educacionais Tecnológicos – GETs no Rio de Janeiro e programas municipais como Sobral, Santos e Curitiba mostram que investir no professor é a chave para escalar boas práticas, fortalecer o protagonismo docente e melhorar resultados de aprendizagem de forma sistêmica reforçam a centralidade do docente na inovação.

A profissão docente vive um momento de reinvenção. Em um contexto em que a tecnologia evolui rapidamente e os estudantes chegam cada vez mais conectados e diversos, o professor se torna o principal agente capaz de traduzir inovação em aprendizagem significativa. Para isso, precisa ser apoiado, reconhecido, ouvido e valorizado. O futuro da educação brasileira depende diretamente da capacidade de construir políticas de formação sólidas, alinhadas às demandas contemporâneas, e de garantir condições reais para que os professores exerçam sua função com excelência também exige que a sociedade reconheça esse protagonismo.

Mais do que tendência, a valorização e a formação docente são urgências estruturais. E é somente fortalecendo o professor, seu conhecimento, sua autonomia e seu protagonismo que será possível impulsionar uma educação inovadora, equitativa e capaz de preparar crianças e jovens para os desafios do mundo em constante transformação. O caminho da inovação começa, inevitavelmente, pela valorização de quem ensina investir no professor é investir no futuro.

Sobre o(a) autor(a)

Artigos

Formada em Letras e Pedagogia, com especialização em Língua Portuguesa pela Unicamp, Mestra em Educação pela PUC-SP e FabLearn Fellow, Columbia, EUA. Professora da rede pública de SP, idelizou o trabalho de robótica com sucata, que é uma política pública e metodologia de ensino. Gestora, consultora e formadora docente, considerada uma das dez melhores professoras do Mundo pelo Global Teacher Prize, nobel da Educação. Atualmente, assina a coluna Educação Inovadora no blog Redes Moderna e é autoras dos livros de Robótica com Sucata e Robótica com Sucata II - uma aventura pela criatividade.