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LITERATURA COM MARIA JOSÉ NÓBREGA

Ler com os ouvidos

By | LITERATURA COM MARIA JOSÉ NÓBREGA, Sem Categoria | No Comments

Ao acompanharem a leitura em voz alta de um livro por um leitor mais experiente, as crianças têm acesso a textos que ainda não sabem ler, mas que se tornam possíveis pela voz do outro. Essa prática abre um espaço intersubjetivo entre o texto, o leitor e a criança. É pela voz do outro que a criança se sente atraída pela literatura e estimulada a conquistar autonomia para ler.

Para promover esse contato íntimo com o texto, o leitor precisa ir além da decodificação dos sinais gráficos, além da fluência para respeitar as unidades sintáticas do texto. Precisa abrir-se a uma experiência simbólica que se desdobra esteticamente em uma melodia, em uma sonoridade.

Uma tal experiência sensível só é possível com uma leitura expressiva, que mobiliza elementos prosódicos, como entonação (a velocidade, a altura e o volume), ênfase (o realce a palavras ou expressões) e ritmo (a alternância de tempos fortes e fracos para que a performance não fique monótona). Por essa razão, é que se sustenta que, sem uma intimidade profunda com o texto, não há como ler expressivamente. É retomando o texto várias vezes que se encontra a justa interpretação melódica capaz de comunicar os sentidos atribuídos a ele não só pela voz de quem lê, mas também pelo olhar, gestos e movimentos de quem escuta.

Com crianças em processo de alfabetização, a leitura em voz alta permite ainda aproximá-las da linguagem escrita, garantindo que se apropriem de algumas de suas características antes mesmo de compreenderem o que as marcas gráficas representam, como reconhecer diferentes gêneros, estruturas textuais, funções dos textos; familiarizar-se com as expressões mais elaboradas próprias da linguagem literária, formas típicas de como começam e terminam as histórias, associações que permitem, pela experiência com os livros, criar expectativas sobre o que vai ler.

Se pela voz do outro as crianças leem sem saber ler, para que se tornem efetivamente leitoras autônomas, é necessário que, no processo de alfabetização, tenham conhecimentos específicos sobre o sistema alfabético e as convenções da escrita.

Como desenvolver a fluência e a leitura expressiva nas crianças?

A escritora americana Lisa Papp, provavelmente, se inspirou para escrever Madeline Finn e Bonnie (Salamandra) no projeto “Book Buddies”, que convida crianças a lerem para gatos abandonados em um abrigo em Birdsboro (Pensilvânia, Estados Unidos).

Criança lê para um gatinho abandonado em um abrigo nos EUA

Crianças que não têm fluência leitora, certamente, vão se identificar com Madeline que não gosta de ler em voz alta de jeito nenhum, porque as palavras se emaranham em sua boca. O problema da pequena só se resolve quando sua mãe decide levá-la até a biblioteca pública, onde a bibliotecária propõe a ela algo inusitado: ler para Bonnie, uma enorme cachorra branca.

Inspirando-se no livro, sugira que cada criança experimente treinar a leitura em voz alta para o seu de animal de estimação, ou mesmo para uma plateia de bichinhos de pelúcia.

Como foi o treino? Ficou mais divertido? Sua leitura melhorou: ficou mais fluente?

Para não expor as crianças que ainda não tenham fluência, proponha que gravem um áudio com a leitura do texto treinado. Após escutar a gravação com a criança, pergunte:

a. Houve dificuldade para ler alguma palavra? Qual?

b. Ocorreu alguma troca de palavra? Onde?

c. Ao constatar um erro, você já foi capaz de se autocorrigir?

Para crianças que já leem com alguma fluência, mas ainda não o fazem com expressividade, proponha que, após a gravação, façam uma autoavaliação de seu trabalho:

a. Variou a entonação, isto é, a velocidade, a altura e o volume de sua leitura?

b. Realçou a leitura de palavras ou expressões relevantes do texto? Quais foram elas? Por que as escolheu?

c. Procurou alternar os tempos fortes e fracos para que a leitura não ficasse monótona? Que pistas do texto você usou para variar o ritmo?

O desenvolvimento dessas capacidades pode se desdobrar em projetos mais ambiciosos como ler para crianças menores, gravar audiolivros, podcasts. Vai ser uma festa!

Sobre a autora do post

Maria José Nóbrega

Maria José Nóbrega

Colunista

Formada em Língua e Literatura Vernáculas pela PUC/SP, com mestrado em Filologia e Língua Portuguesa pela USP, atuou em programas de formação continuada junto ao MEC, à SEE de São Paulo e à SME de Florianópolis e de São Paulo. Compôs a equipe de elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais, terceiro e quarto ciclos (1998); coordenou a equipe de Língua Portuguesa das Orientações curriculares e proposição de expectativas de aprendizagem para o ensino fundamental: ciclo I e II – SME de São Paulo (2007); integrou a equipe de elaboração da Proposta Curricular de Língua Portuguesa, do 1º ao 5º ano da SEE do Ceará (2014). Atuou como pesquisadora do Projeto “Currículos para os anos finais do ensino fundamental: concepções, modos de implantação, usos”, desenvolvido pelo Cenpec – Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (2015). Foi assessora do Projeto Planos de Aula da Nova Escola.

Atualmente, além de assessorar várias escolas particulares de São Paulo, é coordenadora dos projetos de leitura da Editora Moderna, organizadora da série “Como eu Ensino” da Editora Melhoramentos, professora do curso de Especialização em Formação de Escritores / Instituto Superior de Educação Vera Cruz e do curso O livro para a infância: processos de criação, circulação e mediação contemporâneos / A Casa Tombada.

Cinco títulos para desenvolver a fluência e a leitura expressiva com crianças em fase de alfabetização

GUEDES, Avelino. O sanduíche da Maricota. São Paulo: Moderna.

BELINKY, Tatiana. O grande rabanete. São Paulo: Moderna.

TAYLOR, Sean. Quando nasce um monstro. São Paulo: Salamandra.

MACHADO, Ana Maria. Camilão, o comilão. São Paulo: Salamandra.

PAMPLONA, Rosane. Era uma vez… três! Histórias de enrolar… São Paulo: Moderna.

Uma meta para 2021: ler muitos livros!

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Começamos 2021, tendo que lidar com os velhos problemas de 2020, não é mesmo? Embora a vacina se anuncie como uma esperança, ainda vamos precisar manter o distanciamento social, os cuidados com a higiene das mãos, o uso das máscaras. No ambiente escolar, vai ser necessário enfrentar, com disposição, a herança do ano anterior e os novos desafios: o que nossos estudantes conseguiram aprender com as modalidades de ensino remoto ou híbrido? Quais são as sequelas desse ano tão complexo? 

Nesse contexto, o planejamento requer atenção aos conteúdos essenciais para que todos sigam aprendendo em um ambiente sereno e acolhedor. Essa ação requer o envolvimento de toda a equipe da escola não só para avaliar o que foi possível aprender, mas também para traçar ações didáticas adequadas para atender às necessidades de todos. 

Em meio a tantas urgências, uma pergunta é recorrente: como fica a leitura literária? Há tantos conteúdos a ensinar Ler literatura, nesse momento, não seria perder tempo? Claro que não! Ouso afirmar que a leitura literária talvez nunca tenha sido tão necessária. Em meio a tantas restrições, poder entrar em contato com autores e personagens incríveis, encontrar palavras capazes de traduzir nossos sentimentos, imaginar outras vidas, outros tempos e espaços são experiências que iluminam nossos caminhos. 

Mas como fazer isso? Você pode estar se perguntando. Aí vão duas sugestões para a construção de uma política de letramento literário na escola. 

  1. Quais são os gêneros priorizados em cada ano? Organize com seus colegas um quadro para que todos os educadores tenham acesso a essa seleção. 

PROGRESSÃO DO TRABALHO COM OS GÊNEROS 

Avalie o impacto na formação de leitores do desdobramento de uma ação simples como essa considerando os demais gêneros selecionados. 

2. Quais clássicos a comunidade escolar considera que todas as crianças ou adolescentes não poderiam deixar de ler? Com uma ferramenta como o formulário do Google ou similar, organize uma enquete envolvendo também os pais. Essa consulta pode resultar em uma lista de dicas parecida com esta: 

O que fazer com essetítulos? Ler compartilhadamente, isto é, negociando os sentidos do texto e convidar leitores adultos que tenham lido a obra para dividir suas impressões com a turma presencial ou virtualmente. Será que as emoções que a obra despertou nesses leitores de gerações tão diferentes foram as mesmas? 

E, então, o que achou das sugestõesQue tal transformar 2021 no ano da leitura? 

Mazé

Sobre a autora do post

Maria José Nóbrega

Maria José Nóbrega

Colunista

Formada em Língua e Literatura Vernáculas pela PUC/SP, com mestrado em Filologia e Língua Portuguesa pela USP, atuou em programas de formação continuada junto ao MEC, à SEE de São Paulo e à SME de Florianópolis e de São Paulo. Compôs a equipe de elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais, terceiro e quarto ciclos (1998); coordenou a equipe de Língua Portuguesa das Orientações curriculares e proposição de expectativas de aprendizagem para o ensino fundamental: ciclo I e II – SME de São Paulo (2007); integrou a equipe de elaboração da Proposta Curricular de Língua Portuguesa, do 1º ao 5º ano da SEE do Ceará (2014). Atuou como pesquisadora do Projeto “Currículos para os anos finais do ensino fundamental: concepções, modos de implantação, usos”, desenvolvido pelo Cenpec – Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (2015). Foi assessora do Projeto Planos de Aula da Nova Escola.

Atualmente, além de assessorar várias escolas particulares de São Paulo, é coordenadora dos projetos de leitura da Editora Moderna, organizadora da série “Como eu Ensino” da Editora Melhoramentos, professora do curso de Especialização em Formação de Escritores / Instituto Superior de Educação Vera Cruz e do curso O livro para a infância: processos de criação, circulação e mediação contemporâneos / A Casa Tombada.