
Foto (divulgação): Palmatória sobre a mesa – Museu da Escola “Professora Ana Maria Casasanta Peixoto”, em Belo Horizonte (MG)
“Não culpo meus professores e nem meus pais por terem usado violência comigo na hora de educar”. “O filho é meu, castigo como quiser!”
Infelizmente, ainda ouvimos frases como essas quando o assunto é a maneira de conter a indisciplina de crianças e adolescentes – seja em casa ou no ambiente escolar. Sobrevive no imaginário de alguns brasileiros a ideia de que crianças e menores de idade são propriedade de seus pais ou de instituições. Portanto: ‘menos que pessoas’ em vez de ‘pessoas com direitos próprios”. Submetê-los a algum tipo de castigo físico seria, então, a maneira de ensiná-los a respeitar limites, ainda que “na marra”, ou na base do medo e do constrangimento. Mesmo que a ideia contrarie o direito à dignidade e à integridade física estabelecido tanto no Estatuto da Criança e do Adolescente quanto na Constituição Brasileira, lei maior, há quem ainda defenda ou admita a prática.
Machado de Assis, em seu Conto de Escola, denuncia os castigos corporais, imposto ao personagem ( um menino) pelo pai, “que meu deu uma sova de vara de marmeleiro. As sovas de meu pai doíam por muito tempo”, quanto aos estudantes dos anos de 1840, quando se passa a história: “O pior que ele podia ter, para nós, era a palmatória. E essa lá estava, pendurada no portal da janela, à direita, com seus cinco olhos do diabo. Era só levantar a mão, dependurá-la e brandi-la, com a força do costume, que não era pouca.”
Sobre a autora do post

Leusa Araújo
Leusa Araujo, jornalista, escritora, ganhadora do Prêmio Jabuti 2016 – 2º lugar Paradidáticos com o seu Convivendo em Grupo – almanaque de sobrevivência em sociedade. É pesquisadora de conteúdo no núcleo de teledramaturgia da TV Globo, em Malhação Viva a Diferença.
Uma dezena de bolos

Jornal O Tico Tico, de 1931. Ilustração para história do mestre que desiste de dar 10 bolos de palmatória no aluno…
No meu livro Convivendo em Grupo – Almanaque de Sobrevivência em Sociedade –, lembro que até os anos 1970, embora quase em desuso, a palmatória ainda estava presente nas escolas brasileiras. Felizmente, com a proibição em 1988, as novas gerações não conheceram a “dita cuja”: um artefato de madeira, formado por um círculo com vários furos e uma haste, usado para golpear preferencialmente a mão. Depois de “dar a mão à palmatória” (curiosa expressão que se tornou sinônimo de dar-se por vencido e admitir o erro), costumava-se ficar com bolhas e vermelhões, os conhecidos “bolos”, dado o formato circular dos furos.
Era comum ver depoimentos como este: “Uma vez me deu uma dúzia de bolos de palmatória que me tiraram sangue das mãos, deixando os dedos tão inchados que eu não podia fechar as mãos” (Tico-Tico, 1931).
Numa pesquisa em jornais brasileiros do século XX, são inúmeras as denúncias sobre a palmatória como instrumento de tortura de presos nas delegacias. Até mesmo uma moça é castigada com 24 bolos de palmatória só por usar minissaia, em 1970! (Diário de Pernambuco, 1970).
Nos EUA, segundo matéria recente da BBC News dezenove entre os cinquenta estados americanos batem com palmatória nas nádegas dos estudantes da pré-escola ao final do ensino médio – mesmo que tenha sido abolida há décadas na maioria dos países e em quase todas instituições públicas dos EUA: como centros de treinamento militar, prisões e até mesmo como sentença para criminosos.
Cynthia Nava, senadora democrata do Texas– (Estado que admite a palmatória), já em 2011 — advertia a população, com grande temeridade sobre o que seria o futuro das crianças submetidas a este tipo de castigo: “Para mim, é chocante ver pessoas se levantando e discutindo calorosamente para preservar a situação. Deveríamos estar educando as crianças para que não resolvam problemas com violência”. De fato, antecipava o que aconteceria sete anos depois, quando os EUA atingiriam a marca de 22 tiroteios em escolas.
E você? Ainda acredita que a dor física é um bom corretivo educacional?
Onde ir:
Museu da Escola – Ana Maria Casasanta Peixoto, dedicado à reconstrução da memória pedagógica da educação escolar
Endereço: Av. Amazonas, 5855 – Gameleira, Belo Horizonte – MG
Aberto de segunda à sexta, das 8 às 17 horas. Visitas monitoradas com crianças podem ser agendadas pelo site: http://escoladeformacao.educacao.mg.gov.br
Saiba mais
A organização mundial – Iniciativa Global para Acabar com Todos os Castigos Corporais às Crianças, com sede em Londres incentiva e monitora os processos de proibição dos castigos físicos em todo o mundo. Basta entrar no site, para conhecer a situação nos diversos países do Globo: https://endcorporalpunishment.org.
Uma cartilha sobre o assunto, responde a muitas dúvidas e também esclarece o que há por trás das frases que vez ou outra ainda ouvimos. Abaixo alguns trechos:
Proibir todo tipo de castigo não é um exagero?
“Alguns países tentaram definir maneiras aceitáveis de se bater nas crianças – com que idade, em que partes do corpo, com que objetos e assim por diante. Além de enviar uma mensagem muito confusa sobre a atitude da sociedade em relação à violência contra as crianças, esse exercício é extremamente indigno. Não pensaríamos em tentar definir quais as formas aceitáveis de agredir mulheres, idosos ou qualquer outro grupo da população. As crianças têm o direito à igualdade de proteção contra agressões. Na verdade, as crianças – geralmente menores e mais frágeis que o resto de nós – têm direito a uma proteção maior.”
Ser castigado fisicamente quando era criança não me fez mal nenhum. Eu seria a mesma pessoa hoje se meus pais não me tivessem castigado fisicamente?
Nenhum de nós sabe o que teríamos nos tornado se nossos pais nunca tivessem nos batido ou humilhado. E muitas pessoas, ao dizerem que não lhes fez mal nenhum, estão negando a dor que experimentaram quando os adultos que lhes eram mais próximos pensaram que só poderiam educá-los por meio da dor. Os adultos que batem nos filhos em nome da disciplina normalmente começam a fazê-lo porque eles também foram agredidos quando crianças. Apesar de pesquisas mostrarem que esses adultos muitas vezes sentem-se culpados depois da agressão, eles continuam a bater nos filhos, especialmente quando estão no limite da sua paciência. É inútil culpar gerações anteriores por isso, pois elas estavam agindo de acordo com a cultura dominante na época. Mas é errado resistir à mudança por medo de que pareça que estamos criticando nossos pais. Os tempos mudam e as sociedades avançam. O reconhecimento das crianças como detentoras de direitos requer medidas para acabar com a legalidade e a aceitação social da violência contra as crianças, do mesmo modo que as sociedades avançaram para acabar com a aceitação da violência contra as mulheres.
Veja o que dizem os artigos 18 e 18A do Estatuto da Criança e do Adolescente
Art. 18. É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.
Art. 18-A. A criança e o adolescente têm o direito de ser educados e cuidados sem o uso de castigo físico ou de tratamento cruel ou degradante, como formas de correção, disciplina, educação ou qualquer outro pretexto, pelos pais, pelos integrantes da família ampliada, pelos responsáveis, pelos agentes públicos executores de medidas socioeducativas ou por qualquer pessoa encarregada de cuidar deles, tratá-los, educá-los ou protegê-los. (Incluído pela Lei nº 13.010, de 2014)
Link sobre palmatória nos EUA: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-47622799
Coleção Informação e Diálogo
A coleção Informação e Diálogo trata de temas atuais, que estão em discussão na mídia e que, com certeza, renderão um bom diálogo e uma proveitosa troca de ideias entre os jovens de 11 a 14 anos. Livros em formato de Almanaque que usam e abusam de hipertextos com o intuito de oferecer ao jovem um conjunto de temas que possam ser discutidos e compartilhados entre os colegas de escola, amigos e também na família, despertando o seu interesse e estimulando-o a prosseguir a pesquisa iniciada por meio da leitura.

Confira abaixo mais sobre a coleção Informação e Diálogo:






