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Usando mitos da internet como temas para problematização

No ensino de Ciências, em especial de Química, comumente utiliza-se uma metodologia tradicional, em que prevalece a exposição oral por parte dos professores, com o uso de recursos didáticos limitados, e com pouca ou nenhuma interação com os alunos, ocasionando uma aprendizagem mecânica e sem motivação” (Costa e col., 2012).

Não se pode negar, essa é uma frequente realidade em nossas salas de aula. Mas como inovar e sair do lugar-comum? Que tal uma interessante atividade baseada em desvendar mitos da internet, como o do carro que supostamente andaria 1 mil quilômetros com 1 litro de água?

Assista abaixo ao polêmico vídeo:

O mito, famoso, até já gerou cópias, como o da moto que faria 500 km com 1 litro de água. O compartilhamento desses mitos nas redes sociais, como se fossem verdadeiros, evidencia uma característica preocupante: o alto índice de analfabetismo científico na população brasileira, até mesmo nas camadas mais instruídas. No entanto, esse vídeo configura um excelente tema para o uso da Metodologia da Problematização. Para tal, segundo Berbel (1998), deve-se preparar uma atividade em cinco passos:

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Observação da Realidade

Os alunos devem analisar o fato, registrar suas observações e elaborar algumas questões prévias. Exemplo: A água pode realmente funcionar como combustível? De que modo?

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Identificação dos pontos-chave

Uma discussão em grupo deve ser orientada de modo que os alunos identifiquem as perguntas cruciais para as quais deverão propor respostas. Exemplos: Por que ninguém descobriu isso antes? A eletrólise de um litro de água pode realmente gerar energia para uma moto percorrer 500 km?

Neste momento os alunos, com as informações que dispõem, passam a perceber que os problemas de ordem social […] são complexos e geralmente multideterminados” (Berbel, 1998).

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Teorização

Momento da investigação, em que os alunos consultam fontes de informação sobre o problema. O professor pode e deve auxiliar na escolha de fontes confiáveis. Importante: note que nessa atividade os professores deixam de ser os fornecedores de conhecimento e os estudantes deixam de desempenhar papeis passivos de meros receptores de informação.

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Hipóteses de Solução

A investigação deve abastecer os alunos de maneira que eles elaborem uma argumentação consistente para suas conclusões. Observe que, naturalmente, haverá um envolvimento com tópicos essenciais de fundamentos da Química.

Possíveis cálculos que os alunos podem apresentar

químicaA alegação é a de que com 1 L de água a moto percorre 500 km.
A eletrólise de 1 L (1 kg) de água fornece cerca de 100 g de gás hidrogênio (˜10% da massa total), que liberam 14.000 kJ (o poder calorífico do gás hidrogênio é cerca de 140 kJ/g).

Já a gasolina libera cerca de 48 kJ/g. Portanto, 14 mil kJ são liberados na queima de aproximadamente 300 g de gasolina, ou 375 mL (densidade da gasolina = 0,8 g/mL), que dá para percorrer irrisórios 7,5 km para uma autonomia de 20 km/L.

Note que não se espera que os alunos cheguem a respostas “corretas”, mas que levantem hipóteses; eles devem expressar livremente suas ideias e hipóteses de solução com base em conhecimentos anteriores e em novos saberes agregados em sua investigação. Nessa proposta, o professor deve atuar como mediador da discussão, configurando-se um trabalho colaborativo entre o professor e o estudante e entre os próprios estudantes.

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Aplicação à Realidade

Do meio observaram os problemas e para o meio levarão uma resposta de seus estudos, visando transformá-lo em algum grau”(Berbel, 1998). Uma possibilidade para tal, seria a criação de um blog em que os alunos registrassem seus argumentos derrubando o mito. Assim, os estudantes são confrontados com seu papel de cidadão frente à modificação da realidade social, em especial daquela à sua volta.

Em uma atividade como essa se tem muito a ganhar:

(1) um natural aumento na motivação do aluno, que sai da passividade da aula expositiva, colocando-o em posição de protagonismo;

(2) desenvolvimento de espírito crítico frente a situações reais, verdadeiramente próximas de seu cotidiano.

Agora é com você: escolha um mito (são muitos!) e mãos à obra!

Escrito pelos autores Emiliano Chemello Luís Fernando Pereira. Ambos são coautores, juntamente com Alberto Ciscato, da coleção QUÍMICA, da Editora Moderna.

Emiliano Chemello é Licenciado em Química e Mestre em Ciência e Engenharia de Materiais pela UCS. Professor de química no Ensino Médio e cursos Pré-Vestibulares.

Luís Fernando Pereira é químico industrial formado e licenciado pela USP. Leciona no Curso Intergraus desde 1995. É o químico consultor do programa Bem Estar, da Rede Globo.

REFERÊNCIAS

COSTA, F. F. P et al. O ensino de misturas químicas através da problematização de atividade experimental em sala de aula. VII CONNEPI – Congresso Norte Nordeste de Pesquisa e Inovação, Palmas, TO, 2012. Disponível em: http://propi.ifto.edu.br/ocs/index.php/connepi/vii/paper/viewFile/3789/1238

BERBEL, N. A. N. A problematização e a aprendizagem baseada em problemas: diferentes termos ou diferentes caminhos? Interface – Comunic, Saúde, Educ. Fevereiro 1998. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/icse/v2n2/08.pdf

SANTOS, E. S. O Professor como Mediador no Processo Ensino Aprendizagem. Revista Gestão Universitária, Edição 40. Disponível em: http://www.udemo.org.br/RevistaPP_02_05Professor.htm

Join the discussion 2 Comments

  • Carmen Gonçalves disse:

    Olá!
    Já fiz um trabalho assim com meus alunos em 2015, inclusive está nos anais da SEMLIC/IFAM.
    Realmente faz TOTAL diferença nos alunos, mesmo que sejam de escola pública (geralmente creditados como desinteressados).
    Obtive “teorias” interessantíssimas, como uma aluna que registrou a hipótese da separação água-óleo por causa da polaridade (polar x apolar, moléculas hidrofóbicas do óleo), em contraste ao que aprendera no ano anterior, que limitava à densidade, a causa do fenômeno.
    Genial! Adorei usarem isso! Quero ver o livro novo!!!
    Boa sorte!

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