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Avaliação nossa de cada dia

Ao ser convidada para abrir o espaço deste blog para falar sobre avaliação, pensei sobre o que gostaria de transmitir e como fazê-lo de uma forma que, ao tratar de um tema bastante controverso, pudesse motivar os leitores a uma reflexão sobre as tradicionais e as novas ideias sobre avaliação.

A reflexão sobre processos avaliativos é um dos caminhos possíveis para a problematização dos processos educacionais, seja no interior das salas de aula, nas práticas pedagógicas de cada professor, seja na relação que a comunidade possui com a escola ou, ainda, nos efeitos das políticas públicas aplicadas. Não há interpretação consensual sobre esses aspectos, mas sim, a consideração de que a construção de conhecimento e a definição de ações nessa área devem ser realizadas sempre de maneira coletiva, com diferentes abordagens, e com interesses que visem a um progressivo aperfeiçoamento.

Para organizar nossa conversa, tratarei inicialmente, a cada publicação, sobre os diferentes tipos de avaliações educacionais, suas características, objetivos e utilidades. Assim, esse primeiro post fala sobre um dos mais criticados pelos educadores: a avaliação externa aplicada em larga escala.

É sempre bom começar falando a verdade, não é mesmo?

Juliana Miranda é gerente de avaliação da Avalia Educacional e nossa parceira para o tema Avaliação

As avaliações por si só não têm o poder de transformar procedimentos pedagógicos ou administrativos das escolas. Sozinhas, elas não “melhoram” nem “pioram” os sistemas educativos, uma vez que não expressam as especificidades de cada uma das salas de aula do país.

Mas nem tudo é assim tão limitado.

É muito importante compreender que os dados fornecidos por tais avaliações informam acerca do funcionamento dos processos educativos inseridos no conjunto de todo um sistema, em um sentido macro, mais úteis e significativos para a gestão escolar do que para os professores que, necessariamente, precisam se preocupar com o processo de aprendizagem de cada um de seus alunos, com uma abordagem bastante específica e, muitas vezes, individualizada.

Nesse sentido, as avaliações externas são, obrigatoriamente, configuradas por métodos científicos objetivos, que determinam desde as áreas e os temas abordados – que guiam a elaboração das questões aplicadas – até as formas de cálculo e apresentação de resultados. Ou seja, o foco de uma avaliação externa em larga escala é muito bem definido, e sua abordagem não se relaciona a todos os conteúdos curriculares das escolas, mas apenas àqueles necessários para o alcance de seu objetivo de análise.

No cenário dos projetos oficiais desenvolvidos pelo MEC/Inep, exames como os da ANA, da Prova Brasil e do Enem estão diretamente relacionados a estudos longitudinais, cuja metodologia utilizada assegura a comparação e o acompanhamento dos dados organizados. Eles aferem o desenvolvimento de competências e habilidades em áreas de conhecimento como Leitura e Matemática (dentre outras) por meio de metodologias particulares (como a Teoria de Resposta ao Item), uma vez que são aplicadas por atores que não pertencem ao cotidiano da sala de aula. Para as instituições que participam dessas avaliações, portanto, elas são úteis para o aperfeiçoamento de processos e práticas por meio do diagnóstico de seu trabalho. Para os gestores educacionais, principalmente, elas auxiliam na prestação de contas às famílias dos alunos e à sociedade, ao transparecer o emprego de recursos, a orientação das políticas e os planos de ação dos sistemas educacionais.

Passível de reflexão, também, é a forma de divulgação dos resultados das avaliações. Com a constante atividade da imprensa e a rápida transmissão de informações, o primeiro produto destacado é o ranking dos melhores e piores.

Apesar de ser preciso admitir que a determinação de uma lista com uma classificação de escolas seja uma importante ferramenta de marketing, ela está longe de traduzir o que é qualidade da educação, pois informa apenas fragmentos do processo realizado. E é papel dos educadores e dos interessados em educação transmitir à sociedade o significado desses rankings, a forma como são produzidos e sua utilidade para o trabalho pedagógico.

Assim, a garantia da qualidade da educação passa pela realização de avaliações externas. E a compreensão de como essas são planejadas e quais são seus objetivos, faz com que esta deixe de ser uma ação autoritária e penalizante e a transforma em uma prática necessária e útil.

As avaliações não proporcionam uma receita sobre como desenvolver uma educação de qualidade, mas a reflexão sobre os dados produzidos oferece à comunidade escolar a oportunidade de analisar a trajetória do trabalho que tem sido realizado e de verificar processos que deram certo e podem ser incentivados, como também aqueles que precisam de aperfeiçoamento.

Escrito por Juliana Miranda

Bacharel em Ciências Sociais/USP e Mestre em Educação/PUC-SP e gerente de Avaliação da Avalia Educacional

Referências:

SOLIGO, Valdecir. A ação do professor e o significado das avaliações em larga escala na prática pedagógica. Em: WERLE, Flávia Obino Corrêa (org.). Avaliação em larga escala: foco na escola. São Leopoldo: Oikos; Brasília: Liber Livro, 2010. p. 119-133.

SCHWARTZMAN, Simon. As avaliações de nova geração. Em: SOUZA, Alberto de Mello e (org.). Dimensões da avaliação educacional. Petrópolis: Vozes, 2005. p. 15-34.

WERLE, Flávia Obino Corrêa. Sistema de avaliação da educação básica no Brasil: abordagem por níveis de significação. Em: WERLE, Flávia Obino Corrêa (org.). Avaliação em larga escala: foco na escola. São Leopoldo: Oikos; Brasília: Liber Livro, 2010. p.21-36.