Cigarro: a maior causa de morte evitável do mundo

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Uma pesquisa publicada no final de 2016 estima que as mortes relacionadas ao tabaco do cigarro deverão aumentar dos atuais 6 milhões para 8 milhões até 2030 (U.S. National Cancer Institute, 2016). Além disso, o tabagismo gera um custo anual à economia global de mais de 1 trilhão de dólares, pois diversos estudos científicos indicam que o consumo prolongado de derivados do tabaco tem relação direta com 50 doenças, como câncer, doenças cardiovasculares (infarto, angina) e respiratórias obstrutivas crônicas (enfisema e bronquite) (SOCIEDADE BRASILEIRA DE PNEUMOLOGIA E TISIOLOGIA et al, 2010).

Apesar do percentual de pessoas fumantes com 15 anos ou mais no mundo cair a cada ano (em 2000, eram 26,5%; projeções para 2020 indicam um percentual de 19,7 %), o número de fumantes no mundo em números absolutos aumenta a cada ano – em 2020 estima-se que serão pouco mais de um 1,1 bilhão de pessoas. No Brasil, dados de 2013 indicavam a existência de 24,6 milhões de fumantes com 15 anos ou mais.

Segundo especialistas em saúde, o tabagismo é a maior causa de morte evitável do mundo (SOCIEDADE BRASILEIRA DE PNEUMOLOGIA E TISIOLOGIA et al, 2010). Porém, provavelmente você já ouviu falar sobre as dificuldades de se deixar o vício. Mas por quê? O que há no cigarro ou em sua fumaça para ele ser tão prejudicial? Neste texto, serão dadas respostas a essas questões do ponto de vista da Química.

Aspectos cancerígenos e viciantes do cigarro

Em essência, o que queima no cigarro é a folha da espécie Nicotiana tabacum, conhecida popularmente por tabaco ou fumo. Neste processo de combustão são gerados cerca de 6.000 compostos (RODGMAN e PERFETTI, 2013). Neste texto iremos focar em dois tipos de substâncias: as cancerígenas e as viciantes. Entre as substâncias cancerígenas derivadas da fumaça do cigarro, destacam-se os hidrocarbonetos aromáticos policíclicos – veja alguns exemplos ao lado.

cigarro-substâncias-cancerígenas
Figura 1: Fórmula estrutural de algumas substâncias
cancerígenas presentes na fumaça do cigarro
(DAMJANOV, 2012)

A ação exercida por estes hidrocarbonetos é ativada durante o seu metabolismo, que resulta na formação de compostos hidrossolúveis para facilitar a sua excreção. O mecanismo de eliminação envolve primeiramente a formação de epóxidos (éteres cíclicos), seguida da geração de compostos polihidroxilados (vários grupos hidroxila –OH), os quais são mais solúveis em água, viabilizando a sua eliminação pela urina. Um destes intermediários pode reagir com a base guanina do DNA dando origem a processos que podem resultar em câncer (CARUSO e ALABURDA, 2008).

Mesmo diante de números tão alarmantes, boa parte dos fumantes revela uma grande dificuldade em parar. Dentre as milhares de substâncias do cigarro, há uma que merece destaque neste aspecto: a nicotina.

cigarro-nicotina
Figura 2: Fórmula estrutural da nicotina.

Quimicamente falando, a nicotina presente no tabaco é um alcaloide, ou seja, uma substância orgânica nitrogenada contendo um ou mais grupos amina, sendo geralmente obtida a partir de plantas. Trata-se de uma droga psicotrópica, ou seja, uma substância que age no sistema nervoso central causando alteração na função cerebral. A interação da nicotina com nosso organismo pode ser representada simplificadamente pelo esquema a seguir.

Sobre os autores

Luís Fernando Pereira

Luís Fernando Pereira

Professor e autor

Químico industrial formado e licenciado pela USP. Leciona no Curso Intergraus desde 1995. É o químico consultor do programa Bem Estar, da Rede Globo.

Emiliano Chemello

Emiliano Chemello

Professor e autor

Licenciado em Química e Mestre em Ciência e Engenharia de Materiais pela UCS. Professor de química no Ensino Médio e cursos Pré-Vestibulares.

Patrícia Proti

Patrícia Proti

Professora e autora

Bacharel e licenciada em Química pelo IQ-USP. Bolsista FAPESP de Iniciação Científica e Doutorado Direto com projetos desenvolvidos no Laboratório de Química de Peptídeos do IQ-USP. Atualmente leciona na Escola Móbile e no Cursinho Intergraus.

vício-cigarro
Figura 3: Mecanismo simplificado do vício em nicotina proveniente de cigarros
(SPENCE e BARNETT, 2013).

O desejo de fumar provocado pelo hábito, estresse ou por uma necessidade de aliviar os sintomas da abstinência estimulam o ato de fumar cigarro, acarretando um pico de concentração de nicotina no cérebro. Lá, os receptores colinérgicos nicotínicos (nAChRs) são ativados, resultando na liberação de dopamina e outros neurotransmissores, que por sua vez, causam sensação de prazer e bem-estar. A ativação destes receptores também resulta no desenvolvimento de novos circuitos neurais – fenômeno chamado de plasticidade neural que contribui para o estabelecimento do vício.

Após serem ativados pela nicotina, os nAChRs por fim se tornam dessensibilizados a ela, levando a uma tolerância à nicotina em curto prazo e a uma redução da satisfação pelo tabaco. No período entre os cigarros, ou após cessar o uso do tabaco, os níveis de nicotina do cérebro diminuem, o que leva a níveis reduzidos de dopamina e outros neurotransmissores e a sintomas de abstinência. Na ausência de nicotina, os nAChRs recuperam sua sensibilidade à nicotina e se tornam ativos em resposta a uma nova dose.

Quais alternativas para se livrar do vício do cigarro?

Deixar de fumar é uma experiência cuja dificuldade pode variar muito entre os fumantes. Este texto dará enfoque ao mecanismo de algumas substâncias para auxiliar no tratamento para parar de fumar. Basicamente há dois tipos de abordagem para o tratamento do tabagismo: (SILVA, 2010)

  1. TRN (tratamento de reposição de nicotina);
  2. Medicações sem nicotina.

O TRN é utilizado em pacientes com alta dependência de nicotina. Por meio de goma de mascar, spray nasal ou adesivo, administra-se ao fumante doses controladas de nicotina com uma redução progressiva até o final do tratamento. Trata-se de uma forma de reduzir o sofrimento durante a fase de abstinência do cigarro e pode ser aplicada isoladamente ou em conjunto com outras abordagens terapêuticas.

Entre as medicações não nicotínicas, vamos aqui dar ênfase a duas: a bupropiona e a vareniclina.

Figura 4: Estrutura da bupropiona
Figura 5: Estrutura da vareniclina

A bupropiona originalmente era um antidepressivo, mas descobriu-se que os pacientes fumantes que tomavam este remédio tinham seu desejo por cigarro diminuído. O mecanismo de ação da bupropiona parece estar ligado à ação inibidora da recaptação da dopamina, ou seja, a dopamina liberada fica entre os neurônios por mais tempo. Acredita-se que esta inibição poderia minimizaria os sintomas da abstinência de nicotina.

Já a vareniclina foi o primeiro medicamento desenvolvido especificamente contra o tabagismo. Esta substância tem ação dupla: bloqueia os receptores nAChRs, reduzindo a ação da nicotina sobre eles, e estimula a produção moderada de dopamina e outros neurotransmissores.

Questões sobre o texto

1-) Em 2013, o Brasil tinha cerca de 200 milhões de habitantes. Utilizando as informações do texto, calcule o percentual de fumantes com 15 anos ou mais referente à população total do Brasil em 2013.

2-) Entre as estruturas abaixo, indique aquela que, segundo o texto, possui as características estruturais típicas de um produto do metabolismo de hidrocarbonetos aromáticos policíclicos que podem dar origem ao câncer. Justifique sua resposta.

(a)

est1

 

 

 

 

(b)

est2

 

 

 

 

(c)

est3

 

 

 

3-) Explique com suas palavras como é possível tratar o vício em cigarro utilizando justamente a substância que causa este vício.

Respostas

1-)

200 milhões habitantes ————— 100%

24,6 milhões habitantes ————– X

X = 12,3 %

2-) A estrutura (b) possui a função epóxi (éter cíclico – em vermelho) e os grupos hidroxila (em azul).

est_resp

3-) Apesar da nicotina ser a substância que causa o vício, sua administração de maneira controlada diminui o sofrimento no período de abstinência. As doses de nicotina são diminuídas progressivamente até que o paciente não seja mais dependente da substância.

PNLD 2018 | Química Ciscato – Pereira – Chemello  – Proti

A nova coleção valoriza a contextualização, a interdisciplinaridade e a experimentação como formas de conscientizar o aluno sobre a presença da Química no dia a dia. Por isso, os conteúdos tradicionais da disciplina são apresentados por meio de temas bastante significativos para a vida em sociedade, dando ao professor segurança e recursos para um ensino conectado com as expectativas dos alunos e as habilidades para o século XXI.

Confira abaixo mais sobre a coleção inscrita no PNLD 2018:

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Examining the relationshiop between diet-induced acidoses and cancer : https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22853725

The Alkaline Diet: Is There Evidence That an Alkaline pH Diet Benefits Health?https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3195546/

Bischoff WD, et al. The effect of acid ash and alkaline ash foodstuffs on the acid-base equilibrium of man. J Nutr.

Tobey JA. The question of acid and alkali forming Foods. Am J Public Health Nations Health.

Upton PK, L’Estrange JL. Effects of chronic hydrochloric and lactic acid administrations on food intake, blood acid-base balance and bone composition of the rat. Q J Exp Physiol Cogn Med Sci.

Pizzorno J, et al. Diet-induced acidosis: is it real and clinically relevant? Br J Nutr. 2010.

Napoleão: morto por um papel de parede?

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Com este artigo, estreamos nossa coluna quinzenal A Química e a vida de 2017. Para este ano, apresentaremos uma série de textos sobre temas bastante pertinentes e interessantes, que mostrarão aos professores e alunos o quanto a Química permeia e sempre permeou nossas vidas. Neles, trataremos de aplicações dessa ciência e/ou de sua onipresença na história da Humanidade. A proposta é que o professor use esses artigos para trabalhar em sala de aula e que os alunos possam ser avaliados quanto à capacidade de leitura e interpretação com as questões que fecham os artigos. Esperamos, assim, colaborar para um estudo mais agradável e eficaz dessa ciência.

Obrigado por nos deixar entrar em sua aula, estimado colega.
Emiliano Chemello | Luís Fernando Pereira | Patrícia Proti

Napoleão: morto por um papel de parede?

Enfim, Napoleão Bonaparte havia sido derrotado. Corria o ano de 1815 quando, subjugado pelos ingleses, Napoleão foi exilado na nebulosa Ilha de Santa Helena, no meio do Oceano Atlântico, onde costumava passar boa parte dos dias dentro de casa, por conta de um clima bastante úmido. Menos mau, provavelmente pensara ele – melhor que voltar para a França, onde teria que enfrentar a ira da oposição. Napoleão, porém, ficou doente durante seu exílio. Inchado e acima do peso, apresentava tremores incomuns e, apesar de estar com apenas 50 anos, estranhamente havia perdido o controle das pernas. Sentia também intensas e frequentes cólicas abdominais. Desconfiado, achava que os ingleses o estavam envenenando e matando-o aos poucos.

Em 1821, aos 52 anos, morreu. A autópsia revelou uma úlcera perfurada no estômago canceroso do outrora imperador francês. Seria esse o problema causador de sua morte? Alguns acreditam que sim, mas havia outra suspeita… Afinal, vítimas de câncer estomacal normalmente emagrecem, e Napoleão havia ganhado bastante peso… Um século depois, os cientistas relacionaram os sintomas de Napoleão, meticulosamente registrados em um diário, a envenenamento por arsênio. Teriam os ingleses o envenenado de fato?

No corpo humano, o arsênio é cruel. Ele substitui o fósforo em moléculas essenciais ao funcionamento harmônico do organismo criando estruturas semelhantes, mas com arsênio no lugar do fósforo. Por exemplo, a molécula 1,3-difosfoglicerato, importantíssima no uso da glicose como fonte de energia, é convertida em 1-arseno-3-fosfoglicerato – uma estrutura muito parecida, porém, inútil do ponto de vista metabólico. Pode-ser dizer que “o organismo confunde o arsênio com o fósforo”, e esse é o início do fim. Quanto mais arsênio, mais a morte se aproxima.

Mas como comprovar esse envenenamento? Seria possível? Por incrível que possa parecer, graças à ciência, a resposta é sim! Graças mais especificamente ao Teste de Marsh. Como alguns fios de cabelo de Napoleão haviam sido guardados, um costume à época, o teste descrito abaixo, com os fios de cabelo no lugar do óxido de arsênio, pôde ser realizado.

Montagem experimental para o teste de Marsh. Ácido sulfúrico é adicionado a zinco metálico
e uma solução de óxido de arsênio (III). O hidrogênio produzido reage com As2O3, produzindo
arsina (AsH3). Por aquecimento, a arsina decompõe-se em arsênio elementar,
de aspecto metálico, e hidrogênio gasoso. (CHANG e GOLDSBY, 2013).

Havendo arsênio nos fios de cabelo de Napoleão, também ocorreria a formação de arsina e posteriormente surgiria um anel metálico como visto na ilustração acima. E foi exatamente o que aconteceu. O teor de arsênio encontrado era de aproximadamente 30 ppm – alto demais (valores de segurança não ultrapassam 3 ppm e o normal é que se encontre apenas 1 ppm)! Mas quem matou Napoleão? Teria sido uma das pessoas que o acompanharam no exílio? Na verdade, o maior suspeito era um papel de parede!

Nos anos de 1980, químicos ingleses retomaram o caso. Um deles, Dr. David Jones, sabia que muitos casos de envenenamento por arsênio do século XIX eram meros acasos. Nessa época, as tintas verdes continham um pigmento chamado “verde de Scheele” que tinha como ingrediente principal o arseniato de cobre (CuHAsO3), uma substância inofensiva, a menos que se forme mofo sobre ela (lembre-se do clima úmido da ilha). Ocorre que os fungos do mofo se alimentam do que estiver ao seu alcance: nesse caso, o material do papel de parede. Mas, em sua luta pela sobrevivência, podem produzir substâncias nocivas a outros seres vivos, como o gás trimetilarsênio ((CH3)3As), altamente tóxico!

Como saber se o papel de parede do quarto de Napoleão continha o tal pigmento venenoso? Muito difícil, não é? Pois bem, ao comentar o caso em um programa de rádio, o Dr. Jones alcançou um ouvinte que, de modo quase inacreditável, tinha um pedaço do tal papel de parede guardado em um álbum de família por um de seus ancestrais, como recordação de viagem à ilha de Santa Helena feita há mais de um século! E qual a sua cor? Verde! E mais: seu desenho coincidia com os dos retratos do quarto de Napoleão feitos à época! De fato, experimentos posteriores revelaram altíssimos índices de arsênio na composição do papel! Era o verde de Scheele! Impressionante, não?

Mistério resolvido, certo? Mais ou menos… O Dr. Jones e outros especialistas acreditam que Napoleão morreu mesmo de câncer no estômago, mas que essa doença pode muito bem ter se iniciado pela ação do arsênio, ou que, no mínimo, o arsênio intensificou seus efeitos, matando Napoleão Bonaparte de modo lento e sofrido. Morto por um papel de parede.

Perguntas

1-) Segundo as informações do texto acima e seus conhecimentos de Química fundamental, a única afirmação verdadeira é:

a) Não há dúvidas, Napoleão morreu única e exclusivamente pela ação do arsênio em seu organismo.
b) A ação tóxica do arsênio é advinda, basicamente, da sua forma metálica.
c) Parece evidente que o clima da ilha de Santa Helena foi um fator fundamental para a morte de Napoleão nos 6 anos em que ali morou.
d) No teste de Marsh, pode-se afirmar que o arsênio passa por um processo de oxidação na reação que leva à formação do anel metálico.

2-) Em uma das análises dos fios de cabelo de Napoleão feita em 1990, determinaram-se diferentes valores de concentração para o arsênio de 51 ppm, 3 ppm e 24 ppm, em um período de 6 meses de seu exílio em Santa Helena. Explique de que modo essas variações podem se relacionar aos dados do gráfico abaixo.

Gráfico: Dados sobre umidade e índices de pluviosidade médios na Ilha de Santa Helena durante um ano.
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3-) O perigo da ação do arsênio está na sua capacidade de mimetizar o fósforo. Explique essa capacidade em função das características atômicas desses elementos químicos. Além dos cabelos, em que outra parte do corpo humano o arsênio provavelmente deve se acumular? Explique.

Respostas

1-) Alternativa C. A umidade da Ilha de Santa Helena favoreceu a formação do mofo que levou à formação do composto trimetil arsênio, de alta toxicidade, que foi inalado por Napoleão durante praticamente toda sua estada no exílio, até sua morte.

2-) Fica nítido pela avaliação do gráfico que a umidade na Ilha de Santa Helena é alta durante quase todo o ano, menos no período de outubro a dezembro, provavelmente um período de menor atividade dos fungos (mofo) e, por consequência, menor produção de trimetil arsênio, levando a índices menores (3 ppm) de intoxicação por arsênio. O período em questão pode ser de julho a dezembro, sendo o mês de julho o mês mais úmido o que levaria ao maior teor de arsênio encontrado (51 ppm).

3-) O arsênio e o fósforo são elementos representativos pertencentes ao mesmo grupo da Tabela Periódica (grupo 15). Assim, como os dois apresentam 5 elétrons em suas camadas de valência, possuem propriedades químicas semelhantes. Assim, é esperado que o organismo “confunda” esses dois elementos. É sabido que o fósforo é um elemento fundamental na formação dos nossos ossos; assim, é de se esperar que o arsênio apareça na composição dos ossos de uma pessoa por ele envenenada ao longo de tanto tempo, o que, como tudo indica, teria ocorrido com Napoleão.

Escrito pelos autores Emiliano Chemello, Luís Fernando Pereira Patrícia Proti. Todos são autores, juntamente com Alberto Ciscato, da coleção QUÍMICA, da Editora Moderna, inscrita no PNLD 2018.

Emiliano Chemello é Licenciado em Química e Mestre em Ciência e Engenharia de Materiais pela UCS. Professor de química no Ensino Médio e cursos Pré-Vestibulares.

Luís Fernando Pereira é químico industrial formado e licenciado pela USP. Leciona no Curso Intergraus desde 1995. É o químico consultor do programa Bem Estar, da Rede Globo.

Patrícia Proti é bacharel e licenciada em Química pelo IQ-USP. Bolsista FAPESP de Iniciação Científica e Doutorado Direto com projetos desenvolvidos no Laboratório de Química de Peptídeos do IQ-USP. Atualmente leciona na Escola Móbile e no Cursinho Intergraus.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Revista Chemmatters, American Chemical Society . Edições de dezembro de 1998 e dezembro de 2005.

EMSLEY, J. The elements of murder: a history of poison. Oxford University Press, 2005.

CHANG, R., GOLDSBY, K. Química. 11. Ed. – Porto Alegre: AMGH, 2013.

Devemos nos preocupar com os teores de sódio nas águas minerais?

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Com frequência são publicados artigos alertando para o teor de sódio nas águas minerais. Veja alguns exemplos:

HASEN, C. Saiba como escolher a água mineral mais saudável. Jornal Zero Hora, 27/12/2013.

CERON, L. P. A polêmica do sódio na água mineral. Revista TAE, 03/10/2014.

AL’HANATI, Y. Sódio na água atrapalha dieta. Gazeta do Povo, 27/04/2014.

Note que, segundo dados dos artigos, as diferenças entre os valores das concentrações de sódio ultrapassam 3000%! Mas será que essa enorme diferença é mesmo relevante no que diz respeito à nossa saúde? A seguir, sob esse interessante contexto, propomos uma atividade que tem como foco trabalhar o importante conceito da concentração do soluto em uma solução.

Construindo o conceito de “concentração” para o teor de sódio

A problematização pode ser iniciada com a leitura de uma das reportagens citadas. Nelas são informadas as concentrações de sódio em diferentes marcas de água mineral. Por uma questão de uniformização, praticamente todas as marcas indicam a concentração de sódio em mg/L. Esta informação pode ser utilizada para introduzir o conceito de concentração. Por exemplo, pode-se perguntar aos alunos:

“Em uma garrafa de 500 mL de água mineral consta que há 16 mg/L de sódio. É correto dizer que nesta garrafa há 16 mg de sódio? Justifique.”

Ao responder esta pergunta, o aluno poderá demonstrar se entendeu ou não o que de fato significa 16 mg/L: o valor da massa de sódio (soluto) presente em um certo volume de solução (água mineral). Espera-se que os alunos consigam perceber que, como 500 mL correspondem à metade de 1 L (1.000 mL), a massa de sódio presente na garrafa será também a metade, ou seja, 8 mg. Para reforçar as diversas relações possíveis, pode-se pedir para os alunos completarem a tabela ao lado que permitirá exercitar a visualização das proporções existentes entre massa de soluto (no caso, sódio) e volume de solução (no caso, água mineral) de uma água mineral com concentração de sódio igual a 16 mg/L. Os valores em rosa são as respostas desejadas.

Para finalizar esta etapa, peça aos alunos para completar a tabela abaixo com as concentrações de sódio presentes nas 5 amostras e indicar quais delas pertencem à mesma marca de água mineral. Novamente, os valores em rosa são as respostas desejadas.

volume sódio

Provavelmente os alunos terão dificuldades na conversão de unidades de medida de massa e volume. Você pode relembrá-los destas conversões utilizando os esquemas abaixo:

CISCATO, PEREIRA e CHEMELLO. QUÍMICA. Volume 1, Capítulo 1:
Introdução ao estudo da química, p. 36.

Após os cálculos, espera-se que os alunos cheguem à conclusão de que as amostras II e III são da mesma marca, pois os valores de concentração de sódio são iguais.

Analisando a magnitude da concentração de sódio nas diferentes águas minerais

Conforme se pode verificar nas reportagens citadas no início, há uma variação muito grande na concentração de sódio nas amostras de água mineral analisadas. Essas diferenças nas concentrações, contudo, serão relevantes no que diz respeito à quantidade de sódio que devemos ingerir diariamente, como inclusive muitas propagandas nos levam a pensar?

Para responder a esta pergunta, você pode conduzir os alunos a pesquisarem sobre:

1. A massa diária de sódio que a OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda consumir.

A OMS sugere uma ingestão diária máxima de 2 g de sódio (WHO, 2012).

3. O volume mínimo de água mineral da marca com maior concentração de sódio que uma pessoa, teoricamente, deveria consumir para atingir a massa de sódio diária recomendada pela OMS.

Um simples cálculo de proporção pode estimar o volume. Considerando a marca cuja concentração de sódio é de aproximadamente 100 mg/L, temos:
100 mg sódio ————— 1 L
Água mineral 2.000 mg ——————— X
X = 20 L
Obviamente, é praticamente impossível, e nem é recomendado, que esse volume seja consumido por uma pessoa em um dia.

4. Admitindo um consumo diário de 2 L de água, qual percentual da massa de sódio diária recomendada pela OMS uma pessoa conseguiria obter se optasse exclusivamente pela marca com maior concentração de sódio?

Considerando novamente a marca cuja concentração de sódio é de, aproximadamente, 100 mg/L, temos:

2.000 mg sódio ————- 100 %

200 mg sódio —————- X

X = 10 %.

Após os alunos analisarem os resultados, peça para que eles se posicionem sobre a seguinte pergunta.

É preciso se preocupar com as altas variações de concentração de sódio nas marcas de água mineral analisadas?

Espera-se, em um debate mediado pelo professor, que os alunos concluam que, apesar da grande variação, o teor de sódio neste tipo de produto é sempre muito baixo em relação ao consumo indicado por dia, e pode representar, considerando-se a ingestão de 2 L de água mineral por dia, na pior das hipóteses, apenas 10 % da massa de sódio diária recomenda pela OMS.

O que o excesso de sódio causa em nosso corpo? Como saber o teor de sódio em outros alimentos?

É de conhecimento geral que não se deve exagerar no consumo de sal de cozinha, pois ele prejudica nossa saúde. Mas por quê? Para despertar a curiosidade dos alunos, recomenda-se o vídeo abaixo, em que o Dr. Dráuzio Varela expõe alguns fatos importantes:

Em seguida, pode-se pedir para que os alunos identifiquem em suas casas o teor de sódio presente nos alimentos. Além disso, solicite que eles façam uma tabela com todos os alimentos consumidos por eles num dia, a quantidade consumida e o teor de sódio presente em cada um. Veja um exemplo de tabela.

TACO - sódio

Provavelmente alguns alimentos consumidos não terão rótulo, pois não são industrializados, como uma maçã. Para estes, recomenda-se consultar a tabela TACO – Tabela Brasileira de Composição de Alimentos. O professor pode ajudar nas conversões de quantidade, pois esta tabela fornece as informações nutricionais de 100 g do alimento. Destaque aos alunos que a variação de sódio nos alimentos pode ser muito grande. Chame a atenção para a informação VD% (valor diário), conforme ilustração a seguir:

Esta informação indica qual porcentagem do valor diário daquele componente você está obtendo ao consumir uma porção do alimento. Somando-se os valores obtidos pode-se estimar se a pessoa está ingerindo sódio suficiente, ou se até mesmo está ingerindo sódio em excesso (problema mais comum no Brasil). Dados de pesquisas (SARNO et al, 2013) mostram que a quantidade diária de sódio consumida em média pelos brasileiros entre no período 05/2008 e 05/2009 foi de 4,7 g em uma dieta de 2.000 kcal, valor quase duas vezes e meia maior que o recomendado pela OMS.

Note os ganhos de uma atividade como essa:

química-icon-1
Ganho informativo sobre um importante fator que interfere diretamente em nossa saúde: o consumo de sódio
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Consciência cidadã para que o aluno possa interferir no meio, deixando de ser presa fácil de propagandas enganosas no que se refere ao comércio de águas minerais e sais de cozinha que, supostamente, são milagrosos e curam todos os tipos de doenças
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Ganho na questão do empoderamento do aluno, que deixa a posição de passividade e passa a ser agente ativo na construção do conhecimento; conhecimento esse, aliás, de importância indubitavelmente relevante em sua vida
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A compreensão do conceito de concentração, tão importante e frequentemente transformado em mera aplicação de fórmulas que, para o aluno, não fazem o menor sentido e não levam a um aprendizado significativo, além de não gerar nenhum ganho real na formação de um cidadão pleno.

Trabalhos como esse fazem toda a diferença! Teste e comprove!

Escrito pelos autores Emiliano Chemello Luís Fernando Pereira. Ambos são coautores, juntamente com Alberto Ciscato, da coleção QUÍMICA, da Editora Moderna.

Emiliano Chemello é Licenciado em Química e Mestre em Ciência e Engenharia de Materiais pela UCS. Professor de química no Ensino Médio e cursos Pré-Vestibulares.

Luís Fernando Pereira é químico industrial formado e licenciado pela USP. Leciona no Curso Intergraus desde 1995. É o químico consultor do programa Bem Estar, da Rede Globo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

SARNO, F. et al. Estimativa de consumo de sódio pela população brasileira, 2008-2009. Rev Saúde Pública 2013;47(3):571-8. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rsp/v47n3/0034-8910-rsp-47-03-0571.pdf

WHO. Guideline: Sodium intake for adults and children. Geneva, World Health Organization (WHO), 2012. Disponível em: http://www.who.int/nutrition/publications/guidelines/sodium_intake_printversion.pdf