Data de validade: quando podemos confiar?

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É quase meio-dia e o garoto João Luís chega da escola faminto! Como está quase na hora do almoço, ele decide apenas tomar um iogurte. Só tem um problema: o único iogurte da geladeira aponta vencimento em poucas horas! E agora? Faltam poucas horas, mas está dentro do prazo de validade – então não tem problema ingeri-lo. Será? Será que um alimento só começa a estragar no minuto seguinte ao vencimento da data de validade? Para complicar, João Luís sabe que seu pai, semana passada, esqueceu a sacola de iogurtes no carro por um dia antes de levá-los à geladeira. E agora, João Luís?

Alimentos, claro, não duram para sempre, mesmo quando armazenados na geladeira e/ou isolados do gás oxigênio presente no ar. Eventualmente, todo alimento estraga. Afinal, com o tempo as moléculas responsáveis pelos sabores, cheiros, texturas e cores eventualmente irão se decompor, ou reagir com outras ali presentes, alterando a composição do alimento e suas características, o que poderá até mesmo torná-lo impróprio para o consumo.

Fonte: CISCATO, PEREIRA e CHEMELLO. Química, Vol. 1 – Química. 1ª Edição. Editora Moderna, 2015, p. 16.

FIQUE DE OLHO!

As bactérias que vivem naturalmente no leite o estragarão em poucas horas se ele for aberto e armazenado à temperatura ambiente. Ao colocar o leite na geladeira, as bactérias que existem não são eliminadas, mas sua taxa de reprodução é reduzida.

Mas como saber se um alimento estragou? Alguns dão sinais claros, como o pão mofado que fica verde e o cheiro do leite azedo. O cheiro, João Luís, preste atenção!

Inevitáveis alterações na composição química dos alimentos

Você já deve ter percebido como um suco de laranja tem seu sabor alterado se levar algum tempo entre o preparo e seu consumo, não? Isso ocorre, ao menos em parte, porque a vitamina C reage rapidamente com o gás oxigênio do ar (sempre ele!). A vitamina C (ácido ascórbico) oxida-se a ácido deidroascórbico que, em solução aquosa, sofre hidrólise, transformando-se em ácido 2,3-dicetogulônico; este, por sua vez, pode sofrer reações – oxidações e decomposições – que produzem materiais com outros sabores, não necessariamente prejudiciais à saúde, mas certamente sem o valor nutricional original do suco! Acompanhe a representação simplificada da transformação da vitamina C em ácido 2,3-dicetogulônico

Outra reação frequentemente responsável pela deterioração de alimentos é a oxidação de ácidos graxos presentes em alimentos gordurosos, como a maionese e a margarina. Expostos à luz e à ação do gás oxigênio (ele de novo!), dão origem a substâncias de odor e sabor desagradáveis por meio de reações que envolvem espécies reativas de oxigênio, isto é, compostos que contêm átomos do elemento oxigênio capazes de remover elétrons das moléculas vizinhas de modo bastante eficaz.

Quando um ácido graxo insaturado, como o oleico (1), por exemplo, reage com uma espécie reativa de oxigênio como o OH▪, forma-se um radical de ácido oleico (2). Este, por sua vez, reage com o gás oxigênio, formando um novo radical do tipo peróxido (3). Por fim, o radical peróxido reage com a molécula original do ácido graxo formando as substâncias responsáveis pelos cheiros e sabores rançosos. A essas espécies que possuem um elétron desemparelhado, dá-se o nome de radicais livres. São altamente reativas, justamente por causa do elétron não emparelhado.

(1)

(2)

(3)

O radical peróxido ainda pode formar outros radicais que, uma vez decompostos, liberam substâncias voláteis como hidrocarbonetos, alcoóis, cetonas e aldeídos. Os aldeídos voláteis são especialmente importantes nessa questão, sendo o hexanal, inclusive, frequentemente monitorado como indicador do grau de oxidação do alimento. Dependendo do teor de hexanal encontrado, o consumo do alimento não é aconselhável.

Além dos aromas rançosos, essa deterioração oxidativa pode causar branqueamento do alimento por conta de reações de pigmentos, como os carotenoides, com os radicais livres. Pode haver também perda na qualidade nutricional, resultado da reação dos radicais livres com vitaminas, especialmente a vitamina E, que tem seu teor significativamente diminuído nesse processo.

Por sua vez, as frutas, como a maçã, a banana e a pêra, assim como alguns legumes e tubérculos como a batata, escurecem quando descascadas e expostas ao ar. Isso ocorre, pois nesses vegetais há moléculas pertencentes à classe dos fenóis, e também as enzimas necessárias para sua oxidação — as fenóis oxidases. No tecido intacto do alimento, fenóis e enzimas não interagem, mas quando o alimento é cortado, amassado ou triturado, os fenóis e as enzimas que estavam compartimentados entram em contato e são expostos à ação do gás oxigênio (mais uma vez!) do ar. Estes três componentes – alimento, enzima e gás oxigênio – possibilitam as reações que causam o escurecimento. Veja a equação que representa uma dessas reações:

Fonte: CISCATO, PEREIRA e CHEMELLO. Química, Vol. 3 – Química Orgânica. 1ª Edição.
Editora Moderna, 2015, p. 313.

A orto-benzoquinona então participa de reações que acabam por formar pigmentos escuros insolúveis de melanina, a mesma substância responsável pelo bronzeamento de nossa pele. Resultado: alimento escurecido.

De volta à data de validade

Como pudemos estudar – e vimos poucos exemplos! – a gama de reações que levam a alterações nos componentes dos alimentos é enorme! Assim, como saber quais alterações indicam formação de produtos prejudiciais à saúde? Aí é que está: nem sempre é possível!

A recomendação é: quando se notam alterações na cor, na textura, no sabor e/ou no aroma de um alimento, ele não deve ser consumido, pois, apesar da incerteza, há boas chances de que ele esteja deteriorado. Essas modificações indicam que ali ocorreram e ainda estão ocorrendo transformações químicas!

A ação indesejável de alguns microrganismos patogênicos (que podem causar doenças) produz materiais que alteram as características originais do alimento, podendo conferir-lhe um aspecto desagradável (mas, cuidado: nem sempre um alimento deteriorado tem aparência ruim…), forte indicativo de que não deve ser consumido. Embora a aparência e o odor sejam os critérios mais utilizados para avaliar se o alimento está adequado ao consumo, devem ser observadas também algumas características das embalagens. Elas não devem, por exemplo, estar estufadas, uma vez que certos microrganismos patogênicos produzem gases que se expandem, aumentando a pressão interna da embalagem.

E a data de validade? Bem, a data de validade só pode ser levada em consideração se, obviamente, o alimento tiver sido conservado de modo adequado, conforme instruções que costumam vir nas embalagens.

Se você quiser saber se um alimento realmente já expirou sua vida útil, aja como um cientista! Faça observações: a cor está alterada? O aroma é o esperado? Alguma pequena dúvida quanto ao sabor? Verifique a embalagem! Qualquer dúvida, por menor que seja, não se arrisque!

Enfim, João Luís abriu o frasco, cheirou o iogurte e sentiu um aroma um pouco azedo. O que ele fez? Descartou o iogurte, decidiu segurar a fome e esperar pelo almoço. Parabéns, João Luís, você é um garoto esperto!

Perguntas

1-) Com relação ao que foi exposto no texto, pode-se afirmar corretamente que:

a) o esquecimento do pai do João Luís, que deixou a sacola de iogurtes por um dia no carro antes de levá-los à geladeira, não deve ter tido influência no fato do iogurte ter estragado antes da data de validade.
b) um alimento está sempre exposto a possíveis transformações químicas, desde o primeiro momento. Bem conservado, porém, ele poderá até mesmo ter uma vida útil maior do que aquela indicada pela data de validade.
c) um copo de suco de laranja não deve ser consumido meia hora depois de ter sido extraído da fruta, pois já não mais estará propício ao consumo. Até mesmo seu sabor já estará alterado, o que funciona como um aviso sobre sua certa deterioração e consumo impróprio.
d) alterações nas embalagens do produto não são indicativos da qualidade do alimento ali guardado. Apenas as características do próprio alimento podem dizer alguma coisa sobre sua condição de consumo.
e) a data de validade que consta da embalagem, por si só, é um indicativo seguro para saber se determinado alimento está ou não próprio ao consumo.

2-) De que modo embalagens a vácuo atuam no sentido de preservar os alimentos?

3-) A vitamina C é muito usada como aditivo na conservação dos alimentos. Em função de tudo que foi exposto no texto, explique de que modo ela age sobre o alimento prevenindo sua deterioração, ao menos por algum tempo.

Respostas

1-) Alternativa B. A data de validade é apenas um indicativo de uma data até a qual, com frequência, o consumo do alimento é seguro. No entanto, se mal conservado, o alimento poderá estragar antes mesmo de “vencer”, sendo o oposto também verdadeiro.

2-) A embalagem a vácuo diminui sensivelmente o contato do alimento com o gás oxigênio do ar que, conforme se pode perceber pelo texto, é um agente bastante ativo na ação de deterioração dos alimentos.

3-) A vitamina C reage rapidamente com o gás oxigênio do ar de modo a diminuir a ação desse último sobre o alimento, o que aumenta sua vida útil.

Escrito pelos autores Emiliano Chemello, Luís Fernando Pereira Patrícia Proti. Todos são autores, juntamente com Alberto Ciscato, da coleção QUÍMICA, da Editora Moderna, inscrita no PNLD 2018.

Os autores

Emiliano Chemello é Licenciado em Química e Mestre em Ciência e Engenharia de Materiais pela UCS. Professor de química no Ensino Médio e cursos Pré-Vestibulares.

Luís Fernando Pereira é químico industrial formado e licenciado pela USP. Leciona no Curso Intergraus desde 1995. É o químico consultor do programa Bem Estar, da Rede Globo.

Patrícia Proti é bacharel e licenciada em Química pelo IQ-USP. Bolsista FAPESP de Iniciação Científica e Doutorado Direto com projetos desenvolvidos no Laboratório de Química de Peptídeos do IQ-USP. Atualmente leciona na Escola Móbile e no Cursinho Intergraus.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • Revista Chemmaters – American Association of Chemistry teachers. “Expiration dates: what do they mean?” – October/November, 2016. p. 13.

Hidrogênio metálico?!

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Muito se fala sobre os feitos e a vida do famoso general francês Napoleão Bonaparte. Parte dessas histórias tem um fundo de verdade, outras, porém, não passam de mitos. Aqui mesmo, neste espaço, já contamos sobre como a vida dele pode ter sido encurtada pela tinta usada em um papel de parede (“Napoleão: morto por um papel de parede?“). Outra dessas histórias conta que a derrota do exército de Napoleão, iniciada pelo embate com soldados russos em 1812, teria se completado com o esfacelamento dos botões de estanho das fardas dos soldados franceses por conta do frio. Esta história tem tudo para ser um grande mito, pois embora o estanho realmente sofra uma transição alotrópica, deixando de ser um sólido brilhante prateado, maleável e moderadamente dúctil (estanho branco), para se tornar um sólido cinza escuro não metálico na forma de pó (estanho cinza), isso ocorre abaixo de 13,2°C (à pressão de 1 atm). Ora, no inverno europeu, temperaturas bem inferiores a essa são comuns por todo o continente, inclusive em Paris de onde saiu o exército de Napoleão, que certamente teria notado algo de estranho nos botões de seus uniformes logo de cara, não?

Mesmo sendo um provável mito, essa história ilustra a existência de substâncias como o estanho, por exemplo, que podem apresentar características metálicas ou não metálicas dependendo das condições de pressão e temperatura em que se encontram. Isso sinaliza também que, teoricamente, mesmo uma substância tipicamente não metálica como o gás hidrogênio, pode adquirir propriedades metálicas se submetida às condições apropriadas.

E é exatamente isso que uma dupla de físicos da Universidade de Harvard (EUA) alega ter conseguido. Isaac Silvera e Ranga Dias resfriaram uma pequena amostra de gás hidrogênio a cerca de -270°C em uma célula, uma espécie de caixa, feita de diamante e a submeteram progressivamente a altas pressões, chegando à incrível pressão de 495 bilhões de Pascais, cerca de 5 milhões de atmosferas! Os pesquisadores relataram que próximo de 2 milhões de atmosferas a amostra já se apresentava em estado sólido, sendo ainda transparente; a 4 milhões de atmosferas ela então se tornou escura e opaca; a cerca de 5 milhões de atmosferas, ela começou a refletir 90% da luz incidida sobre ela, o que seria uma evidência de que o hidrogênio havia adquirido propriedades metálicas!

Fotos da transformação do hidrogênio comprimido com aumento de pressão desde a forma
molecular transparente, passando para a forma molecular negra até o hidrogênio atômico metálico.
Esquema da transformação em questão. Fonte: Harvard Magazine

Essa transformação já era prevista desde 1935 pelos físicos Hillard Huntington e Eugene Wigner, mas eles haviam estimado uma pressão significativamente menor do que as usadas por Silvera e Dias. Entretanto, assim como seus antecessores, os físicos de Harvard também acreditam que o hidrogênio, ao adquirir características metálicas, deve permanecer assim, mesmo após a pressão extrema ser retirada, assim como o diamante obtido ao se submeter grafite a altas pressões e altas temperaturas. Será? Ainda não se sabe. Mas por que isso é importante?

Com as propriedades típicas de um metal, o agora hidrogênio metálico poderia ser usado como um material supercondutor, já que praticamente não apresentaria resistência, afinal cada átomo de hidrogênio contém apenas um próton e um elétron. Outra aplicação possível baseada na supercondutibilidade seria na levitação magnética de trens de alta velocidade, o que revolucionaria completamente o setor de transportes. Ainda seria possível também utilizar o hidrogênio metálico como combustível para foguetes, razão pela qual a NASA financiou parte da pesquisa de Harvard. A energia teórica que poderia ser fornecida pelo hidrogênio metálico o coloca como o propelente de foguetes mais poderoso já conhecido, cerca de quatro vezes mais potente que o hidrogênio molecular (!), que é atualmente o mais eficiente dos combustíveis de foguete.

Todo esse espectro de utilização, no entanto, deve aguardar a caracterização mais precisa do material que, por enquanto, permanece dentro da prensa de diamante sob altíssima pressão no laboratório de Harvard. Além da caracterização, é preciso a confirmação fundamental de que o hidrogênio metálico permanecerá estável quando estiver submetido a condições ambientes de temperatura e pressão. Mas se isso acontecer, prepare-se: uma tremenda revolução energética se apresenta no horizonte!

Perguntas

1-) A transformação mencionada no texto é uma mudança alotrópica do hidrogênio, conduzida de forma extrema, com o auxílio de altas pressões e baixas temperaturas. Que outras transições alotrópicas são citadas no texto? E em que condições elas ocorrem?

2-) Nas fases condensadas, líquida e sólida, qual a principal força intermolecular no hidrogênio molecular? Qual a relação entre esse tipo de interação e a tendência do hidrogênio molecular de se apresentar na forma de gás em condições comuns de temperatura e pressão?

3-) O hidrogênio molecular vem sendo utilizado não só como propelente de foguetes, por meio de sua combustão, mas também em células de combustível a hidrogênio, por meio de sua oxidação controlada. Qual a principal vantagem em se utilizar o hidrogênio para geração de energia?

a) Sua oxidação controlada nas células de combustível converte a energia acumulada nas moléculas de água do sistema em energia química, sem emissão de gases poluentes.
b) Tanto a sua queima quanto a sua oxidação controlada gera apenas como produto a água, portanto, não causa danos ao meio ambiente.
c) Sua combustão produz vapor de água que pode ser reaproveitado na combustão do diesel em motores de caminhões e ônibus.
d) Tanto a sua queima quanto a sua oxidação consomem gás carbônico, diminuindo a concentração desse gás na atmosfera, o que minimiza o problema do aquecimento global.
e) Sua oxidação controlada nas células de combustível converte a energia elétrica oriunda dos combustíveis fósseis em energia química contida nos gases poluentes gerados no processo.

Respostas

1-) São citadas também no texto a transição alotrópica do estanho branco para o estanho cinza, que ocorre em temperatura abaixo de 13,2°C à pressão de 1 atm e a transformação do grafite em diamante, sob altas pressões e temperaturas.

2-) A principal força intermolecular do hidrogênio molecular nas formas condensadas é o dipolo instantâneo-dipolo induzido, já que o hidrogênio é formado por moléculas apolares. Como a intensidade desse tipo de interação depende do tamanho da nuvem eletrônica da molécula, ela é particularmente fraca para a molécula de hidrogênio que apresenta apenas dois elétrons. Assim, suas moléculas interagem fracamente umas com as outras em condições comuns de temperatura e pressão e a substância tende a se apresentar na forma gasosa.

3-) Alternativa B. Tanto na combustão quanto na oxidação controlada do hidrogênio, a reação em questão é: 2 H2 + O2  2 H2O. Portanto, o único produto formado é água, que não causa impactos ambientais.

Escrito pelos autores Emiliano Chemello, Luís Fernando Pereira Patrícia Proti. Todos são autores, juntamente com Alberto Ciscato, da coleção QUÍMICA, da Editora Moderna, inscrita no PNLD 2018.

Emiliano Chemello é Licenciado em Química e Mestre em Ciência e Engenharia de Materiais pela UCS. Professor de química no Ensino Médio e cursos Pré-Vestibulares.

Luís Fernando Pereira é químico industrial formado e licenciado pela USP. Leciona no Curso Intergraus desde 1995. É o químico consultor do programa Bem Estar, da Rede Globo.

Patrícia Proti é bacharel e licenciada em Química pelo IQ-USP. Bolsista FAPESP de Iniciação Científica e Doutorado Direto com projetos desenvolvidos no Laboratório de Química de Peptídeos do IQ-USP. Atualmente leciona na Escola Móbile e no Cursinho Intergraus.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FIORUCCI, A. R.; BENEDETTI FILHO, E.; OLIVEIRA, N. Os Alótropos do Estanho: Ocorrências do Estanho α e as Novas Soldas sem Chumbo Usadas em Eletrônicos. Química Nova na Escola, Vol. 34, N° 3, p. 124-130, agosto 2012. Disponível em <http://qnesc.sbq.org.br/online/qnesc34_3/04-AQ-45-11.pdf>. Acesso em fev. 2017.

SHAW, J. A Breakthrough in High-Pressure Physics? Harvard Magazine, 26-01-2017. Disponível em <http://www.harvardmagazine.com/2017/01/metallic-hydrogen>. Acesso em fev. 2017.

CHANG, R., GOLDSBY, K. QuFAPESP na Mídia. O hidrogênio, um novo metal. 19-04-1996. Disponível em <http://www.bv.fapesp.br/namidia/noticia/20876/hidrogenio-metal/>. Acesso em fev. 2017.

BAIMA, C. Anúncio da fabricação de hidrogênio metálico atrai expectativa e ceticismo. Dupla de Harvard afirma ter tido sucesso na produção de material que pode revolucionar o mundo, O Globo, 28-01-2017. Disponível em <http://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/anuncio-da-fabricacao-de-hidrogenio-metalico-atrai-expectativa-ceticismo-20837432>. Acesso em fev. 2017.

Cigarro: a maior causa de morte evitável do mundo

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Uma pesquisa publicada no final de 2016 estima que as mortes relacionadas ao tabaco do cigarro deverão aumentar dos atuais 6 milhões para 8 milhões até 2030 (U.S. National Cancer Institute, 2016). Além disso, o tabagismo gera um custo anual à economia global de mais de 1 trilhão de dólares, pois diversos estudos científicos indicam que o consumo prolongado de derivados do tabaco tem relação direta com 50 doenças, como câncer, doenças cardiovasculares (infarto, angina) e respiratórias obstrutivas crônicas (enfisema e bronquite) (SOCIEDADE BRASILEIRA DE PNEUMOLOGIA E TISIOLOGIA et al, 2010).

Apesar do percentual de pessoas fumantes com 15 anos ou mais no mundo cair a cada ano (em 2000, eram 26,5%; projeções para 2020 indicam um percentual de 19,7 %), o número de fumantes no mundo em números absolutos aumenta a cada ano – em 2020 estima-se que serão pouco mais de um 1,1 bilhão de pessoas. No Brasil, dados de 2013 indicavam a existência de 24,6 milhões de fumantes com 15 anos ou mais.

Segundo especialistas em saúde, o tabagismo é a maior causa de morte evitável do mundo (SOCIEDADE BRASILEIRA DE PNEUMOLOGIA E TISIOLOGIA et al, 2010). Porém, provavelmente você já ouviu falar sobre as dificuldades de se deixar o vício. Mas por quê? O que há no cigarro ou em sua fumaça para ele ser tão prejudicial? Neste texto, serão dadas respostas a essas questões do ponto de vista da Química.

Aspectos cancerígenos e viciantes do cigarro

Em essência, o que queima no cigarro é a folha da espécie Nicotiana tabacum, conhecida popularmente por tabaco ou fumo. Neste processo de combustão são gerados cerca de 6.000 compostos (RODGMAN e PERFETTI, 2013). Neste texto iremos focar em dois tipos de substâncias: as cancerígenas e as viciantes. Entre as substâncias cancerígenas derivadas da fumaça do cigarro, destacam-se os hidrocarbonetos aromáticos policíclicos – veja alguns exemplos ao lado.

cigarro-substâncias-cancerígenas
Figura 1: Fórmula estrutural de algumas substâncias
cancerígenas presentes na fumaça do cigarro
(DAMJANOV, 2012)

A ação exercida por estes hidrocarbonetos é ativada durante o seu metabolismo, que resulta na formação de compostos hidrossolúveis para facilitar a sua excreção. O mecanismo de eliminação envolve primeiramente a formação de epóxidos (éteres cíclicos), seguida da geração de compostos polihidroxilados (vários grupos hidroxila –OH), os quais são mais solúveis em água, viabilizando a sua eliminação pela urina. Um destes intermediários pode reagir com a base guanina do DNA dando origem a processos que podem resultar em câncer (CARUSO e ALABURDA, 2008).

Mesmo diante de números tão alarmantes, boa parte dos fumantes revela uma grande dificuldade em parar. Dentre as milhares de substâncias do cigarro, há uma que merece destaque neste aspecto: a nicotina.

cigarro-nicotina
Figura 2: Fórmula estrutural da nicotina.

Quimicamente falando, a nicotina presente no tabaco é um alcaloide, ou seja, uma substância orgânica nitrogenada contendo um ou mais grupos amina, sendo geralmente obtida a partir de plantas. Trata-se de uma droga psicotrópica, ou seja, uma substância que age no sistema nervoso central causando alteração na função cerebral. A interação da nicotina com nosso organismo pode ser representada simplificadamente pelo esquema a seguir.

Sobre os autores

Luís Fernando Pereira

Luís Fernando Pereira

Professor e autor

Químico industrial formado e licenciado pela USP. Leciona no Curso Intergraus desde 1995. É o químico consultor do programa Bem Estar, da Rede Globo.

Emiliano Chemello

Emiliano Chemello

Professor e autor

Licenciado em Química e Mestre em Ciência e Engenharia de Materiais pela UCS. Professor de química no Ensino Médio e cursos Pré-Vestibulares.

Patrícia Proti

Patrícia Proti

Professora e autora

Bacharel e licenciada em Química pelo IQ-USP. Bolsista FAPESP de Iniciação Científica e Doutorado Direto com projetos desenvolvidos no Laboratório de Química de Peptídeos do IQ-USP. Atualmente leciona na Escola Móbile e no Cursinho Intergraus.

vício-cigarro
Figura 3: Mecanismo simplificado do vício em nicotina proveniente de cigarros
(SPENCE e BARNETT, 2013).

O desejo de fumar provocado pelo hábito, estresse ou por uma necessidade de aliviar os sintomas da abstinência estimulam o ato de fumar cigarro, acarretando um pico de concentração de nicotina no cérebro. Lá, os receptores colinérgicos nicotínicos (nAChRs) são ativados, resultando na liberação de dopamina e outros neurotransmissores, que por sua vez, causam sensação de prazer e bem-estar. A ativação destes receptores também resulta no desenvolvimento de novos circuitos neurais – fenômeno chamado de plasticidade neural que contribui para o estabelecimento do vício.

Após serem ativados pela nicotina, os nAChRs por fim se tornam dessensibilizados a ela, levando a uma tolerância à nicotina em curto prazo e a uma redução da satisfação pelo tabaco. No período entre os cigarros, ou após cessar o uso do tabaco, os níveis de nicotina do cérebro diminuem, o que leva a níveis reduzidos de dopamina e outros neurotransmissores e a sintomas de abstinência. Na ausência de nicotina, os nAChRs recuperam sua sensibilidade à nicotina e se tornam ativos em resposta a uma nova dose.

Quais alternativas para se livrar do vício do cigarro?

Deixar de fumar é uma experiência cuja dificuldade pode variar muito entre os fumantes. Este texto dará enfoque ao mecanismo de algumas substâncias para auxiliar no tratamento para parar de fumar. Basicamente há dois tipos de abordagem para o tratamento do tabagismo: (SILVA, 2010)

  1. TRN (tratamento de reposição de nicotina);
  2. Medicações sem nicotina.

O TRN é utilizado em pacientes com alta dependência de nicotina. Por meio de goma de mascar, spray nasal ou adesivo, administra-se ao fumante doses controladas de nicotina com uma redução progressiva até o final do tratamento. Trata-se de uma forma de reduzir o sofrimento durante a fase de abstinência do cigarro e pode ser aplicada isoladamente ou em conjunto com outras abordagens terapêuticas.

Entre as medicações não nicotínicas, vamos aqui dar ênfase a duas: a bupropiona e a vareniclina.

Figura 4: Estrutura da bupropiona
Figura 5: Estrutura da vareniclina

A bupropiona originalmente era um antidepressivo, mas descobriu-se que os pacientes fumantes que tomavam este remédio tinham seu desejo por cigarro diminuído. O mecanismo de ação da bupropiona parece estar ligado à ação inibidora da recaptação da dopamina, ou seja, a dopamina liberada fica entre os neurônios por mais tempo. Acredita-se que esta inibição poderia minimizaria os sintomas da abstinência de nicotina.

Já a vareniclina foi o primeiro medicamento desenvolvido especificamente contra o tabagismo. Esta substância tem ação dupla: bloqueia os receptores nAChRs, reduzindo a ação da nicotina sobre eles, e estimula a produção moderada de dopamina e outros neurotransmissores.

Questões sobre o texto

1-) Em 2013, o Brasil tinha cerca de 200 milhões de habitantes. Utilizando as informações do texto, calcule o percentual de fumantes com 15 anos ou mais referente à população total do Brasil em 2013.

2-) Entre as estruturas abaixo, indique aquela que, segundo o texto, possui as características estruturais típicas de um produto do metabolismo de hidrocarbonetos aromáticos policíclicos que podem dar origem ao câncer. Justifique sua resposta.

(a)

est1

 

 

 

 

(b)

est2

 

 

 

 

(c)

est3

 

 

 

3-) Explique com suas palavras como é possível tratar o vício em cigarro utilizando justamente a substância que causa este vício.

Respostas

1-)

200 milhões habitantes ————— 100%

24,6 milhões habitantes ————– X

X = 12,3 %

2-) A estrutura (b) possui a função epóxi (éter cíclico – em vermelho) e os grupos hidroxila (em azul).

est_resp

3-) Apesar da nicotina ser a substância que causa o vício, sua administração de maneira controlada diminui o sofrimento no período de abstinência. As doses de nicotina são diminuídas progressivamente até que o paciente não seja mais dependente da substância.

PNLD 2018 | Química Ciscato – Pereira – Chemello  – Proti

A nova coleção valoriza a contextualização, a interdisciplinaridade e a experimentação como formas de conscientizar o aluno sobre a presença da Química no dia a dia. Por isso, os conteúdos tradicionais da disciplina são apresentados por meio de temas bastante significativos para a vida em sociedade, dando ao professor segurança e recursos para um ensino conectado com as expectativas dos alunos e as habilidades para o século XXI.

Confira abaixo mais sobre a coleção inscrita no PNLD 2018:

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Examining the relationshiop between diet-induced acidoses and cancer : https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22853725

The Alkaline Diet: Is There Evidence That an Alkaline pH Diet Benefits Health?https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3195546/

Bischoff WD, et al. The effect of acid ash and alkaline ash foodstuffs on the acid-base equilibrium of man. J Nutr.

Tobey JA. The question of acid and alkali forming Foods. Am J Public Health Nations Health.

Upton PK, L’Estrange JL. Effects of chronic hydrochloric and lactic acid administrations on food intake, blood acid-base balance and bone composition of the rat. Q J Exp Physiol Cogn Med Sci.

Pizzorno J, et al. Diet-induced acidosis: is it real and clinically relevant? Br J Nutr. 2010.