A febre do “limão alcalinizante”

By | A Química e a vida | 3 Comments

É no programa matutino, naquele portal recheado de notícias, no blog fitness, no site que indica cura para tudo com “produtos naturais sem química” etc. A febre do “limão alcalinizante” invadiu os meios de comunicação! A receita é simples: tomar pela manhã, em jejum, quatro limões espremidos em água morna. O resultado: sangue mais alcalino, o que fortaleceria sobremaneira nosso sistema imunológico, além de nos deixar mais dispostos! Depois, ao longo do dia, o consumo desses ditos alimentos alcalinos (ah, e de água mineral alcalina!), tais como legumes e verduras, reforçaria essa ação de elevação do pH do sangue e, de quebra, ainda auxiliaria na perda de peso!

Mas, espere um pouco… Como diriam nossos avós, “quando o milagre é demais o santo desconfia”. Então, vamos por partes: (1) o limão tem capacidade alcalinizante?; (2) é possível alcalinizar o sangue pela dieta?; (3) por que alguns dizem que é importante manter o sangue alcalino?

O limão tem capacidade alcalinizante?

Como é de conhecimento geral, o limão contém, dentre outros componentes, quantidades apreciáveis de ácido cítrico (H3C6H5O7) que, em água, ioniza-se liberando os íons H+(aq), responsáveis pela acidez do meio:

H3C6H5O7(aq) ⇄ 3 H+(aq) + C6H5O73–(aq)

O sumo do limão costuma ter um valor de pH próximo de 2,0 (a 25 °C) – o que é significativamente ácido! Observe a ilustração a seguir com os valores médios de pH para alguns materiais a 25°C:

Fonte: CISCATO, PEREIRA e CHEMELLO. Química, vol 2, 1ª edição.
Editora Moderna: 2015, p. 287.

Então, sendo o limão uma fruta ácida, de que modo ele seria capaz de alcalinizar o sangue? Que mágica seria essa? Ao que tudo indica, no mínimo desde 1884, quando o químico sueco Svant Arrhenius (1859-1927) lançou sua teoria conceituando ácidos e bases, pode-se facilmente notar que a hipótese do “limão alcalinizante” aparentemente é apenas mais um mito de outros tantos que circulam pela internet. Uma extensa pesquisa nos mostrou que praticamente não há explicações para essa teoria; simplesmente é afirmado que, apesar de ter caráter ácido, no organismo o limão age como alcalinizante e ponto final. Acompanhe:

Água com gotas de limão

Em muitos cardápios da dieta alcalina você verá a famosa água com gotas de limão. Mas não se assuste: ao contrário do que parece, o limão se torna básico no organismo. O gosto não tem a ver com a acidez do alimento. O limão, por exemplo, é maravilhoso para reduzir o pH sanguíneo, mas é ácido. Tomar água com gotas de limão e começar o dia com pH mais alcalino já prepara o corpo pra aproveitar bem os nutrientes que for comer durante o diadiz a nutricionista […]

Fonte: http://gnt.globo.com/bem-estar/materias/dieta-alcalina-conheca-a-alimentacao-que-equilibra-a-acidez-do-organismo.htm

Então o limão se torna básico no organismo? Por quê? Após muita procura, encontramos aquelas que seriam duas possíveis “explicações”:

[…] O limão ajuda no combate a esses problemas por vários motivos, sendo que um deles é o fato de que ele causa um deslocamento no equilíbrio químico do ácido clorídrico no estômago com seus íons em meio aquoso. Esse equilíbrio é mostrado a seguir:

HCl(aq) ⇄ H+(aq) +Cl(aq)

Segundo o princípio de Le Chatelier, quando causamos alguma perturbação em um sistema em equilíbrio, ele é deslocado no sentido de diminuir os efeitos dessa perturbação. Assim, quando ingerimos o limão, ele aumenta a quantidade de íons H+(aq) no estômago e o equilíbrio é deslocado no sentido de consumir os íons H+(aq) , que são os que caracterizam a acidez (quanto mais íons hidrogênio, mais ácido o meio). Portanto, o equilíbrio se desloca no sentido inverso de produção do ácido clorídrico. Esse deslocamento é extremamente rápido, diminuindo assim a acidez do estômago.

Fonte: https://www.quimicalimentar.com.br/como-aliviar-a-acidez-do-estomago-azia-com-limao

Sobre os autores

Luís Fernando Pereira

Luís Fernando Pereira

Professor e autor

Químico industrial formado e licenciado pela USP. Leciona no Curso Intergraus desde 1995. É o químico consultor do programa Bem Estar, da Rede Globo.

Emiliano Chemello

Emiliano Chemello

Professor e autor

Licenciado em Química e Mestre em Ciência e Engenharia de Materiais pela UCS. Professor de química no Ensino Médio e cursos Pré-Vestibulares.

Patrícia Proti

Patrícia Proti

Professora e autora

Bacharel e licenciada em Química pelo IQ-USP. Bolsista FAPESP de Iniciação Científica e Doutorado Direto com projetos desenvolvidos no Laboratório de Química de Peptídeos do IQ-USP. Atualmente leciona na Escola Móbile e no Cursinho Intergraus.

São tantos os erros na hipótese acima que fica até difícil saber por onde começar. Assim, vamos direto ao erro mais grosseiro: é dito que a adição de mais íons H+(aq) advindos do ácido cítrico do limão deslocaria o equilíbrio do ácido clorídrico estomacal de modo a consumir esses mesmo íons o que, consequentemente, diminuiria a concentração de H+(aq) e da acidez! Epa! Como é? Para diminuir a concentração dos íons H+(aq) deve-se adicionar mais íons H+(aq)? Então, para perder dinheiro, nada melhor do que ganhar dinheiro, certo? Errado!

Quando se adiciona uma espécie química comum a um determinado equilíbrio (efeito do íon comum, no caso, o íon H+(aq)), é fato que o equilíbrio é deslocado no sentido de consumi-la. Mas não a ponto de, ao final, se ter menos dessa espécie química do que se tinha antes! Nesse deslocamento, consome-se apenas uma fração do que foi adicionado; assim, a concentração da espécie química adicionadaaumenta! Enfim, é comum que ao se adicionar um ácido a uma solução, ela fique, é claro, mais ácida. Isso sem entrar no mérito de que, para que o raciocínio exposto no excerto acima citado fizesse algum sentido, o ácido clorídrico teria que ser um ácido fraco, o que está longe de ser verdade. E se a ideia é alcalinizar, por que não ingerir substâncias realmente alcalinas, como bicarbonato de sódio?

Aliás, outra explicação que encontramos é a de que a ingestão do sumo do limão induziria a produção de sais (bi)carbonatados no organismo, gerando alcalinidade. É fato que os ânions carbonato e bicarbonato sofrem, realmente, hidrólise básica:

CO32­(aq) + H2O (l) ⇄ HCO3(aq) + OH(aq)

HCO3­(aq) + H2O (l) ⇄ H2CO3(aq) + OH(aq)

Mas como exatamente a ingestão de limão levaria à produção desses sais? Por mais que tenhamos procurado, não encontramos essa resposta. As poucas justificativas encontradas não faziam sentido sob o ponto de vista do conhecimento químico moderno, assim como renomados especialistas em bioquímica consultados também não souberam explicar de que modo isso poderia ocorrer.

Emagrecer e deixar o corpo livre de toxinas são as promessas que vêm conquistando a turma adepta da dieta do pH. A ideia por trás do método é ajustar a alimentação para deixar o pH do sangue mais alcalino[…]

Fonte: http://www.minhavida.com.br/alimentacao/galerias/15586-dieta-alcalina-conheca-os-pros-e-contras-desse-metodo-para-emagrecer

É possível alcalinizar o sangue pela dieta?

Opa, perigo à vista! O funcionamento harmônico do organismo humano depende de uma faixa bem específica de pH! Leia o texto abaixo que trata sobre isso (nele, o que vínhamos simplificadamente chamando de H+(aq) aparece como H3O+(aq), resultado da interação entre moléculas de H2O e íons H+).

O equilíbrio do pH do sangue

A química do sangue é uma ciência muito rica e complexa. O sangue é o rio da vida, entregando combustível e gás oxigênio para os músculos, removendo “lixo químico” e mantendo constante a temperatura do corpo. O pH do sangue é 7,40, levemente alcalino. […] enzimas percorrem todo o nosso corpo, mas funcionam apenas numa estreita faixa de pH. Desvios de apenas 0,2 na escala de pH, para cima ou para baixo, podem causar coma ou até serem fatais. Se o pH cai abaixo de 7,20, resulta uma condição conhecida como acidose. Se o pH se eleva acima de 7,60, tem-se a condição oposta: a alcalose. Qualquer uma das duas afeta seriamente a química do corpo humano.

Talvez uma das habilidades mais notáveis do sangue seja a de manter praticamente constante o pH apesar de ácidos e bases, de um modo ou de outro, surgirem na corrente sanguínea. O pH do sangue se mantém constante pela ação de dois sistemas-tampão. […] o mais importante deles é o tampão “ácido carbônico-bicarbonato”. Esse sistema é representado pela equação:.

H2CO3(aq) + H2O(l) ⇄ HCO3(aq) + H3O+(aq)

Ácido carbônico                        bicarbonato

 

O ácido carbônico (H2CO3) reage com qualquer quantidade extra de íon OH(aq) que entra no sangue, e o íon HCO3(aq) reage com qualquer H3O+(aq) acrescentado. Por exemplo, o ato de exercitar-se produz quantidade extra de H3O+(aq) vinda do ácido lático formado nos músculos. O íon H3O+ reage com o HCO3 para formar ácido carbônico. Este é transportado pelos pulmões onde se decompõe em gás carbônico (CO2) e H2O, que são exalados na expiração. […]

Se surgir algum OH extra no sangue, ele reage com H2CO3 e mais bicarbonato é formado, sendo eventualmente excretado pela ação dos rins. Por vezes, quando uma pessoa fica nervosa, ela respira de modo ofegante, o que é chamado de hiperventilação. Isso causa a expiração de grandes quantidades de gás carbônico e o pH do sangue sobe acima de 7,4. Se a pessoa desmaia, a frequência respiratória cai e o pH rapidamente volta aos níveis adequados. […]

Problemas de saúde como diabetes e doenças relacionadas ao mau funcionamento dos rins podem perturbar a ação tampão do sangue. No entanto, geralmente ele funciona excepcionalmente bem de modo a permitir um funcionamento adequado do nosso organismo.

Fonte: Traduzido de MALONE, Leo J.; DOLTER, Theodore O.
Basics Concepts of Chemistry. 8 ed.
John Wiley And Sons Inc. 2010. p. 425.

Em suma, é fato e é inegável: não é possível alterar o pH sanguíneo por meio da alimentação, algo extensamente relatado no artigo “The Effect of Acid Ash and Alkaline Ash Foodstuffs on the Acid-Base Equilibrium of Man” (http://jn.nutrition.org/content/7/1/51.full.pdf). Segundo esse estudo “se nem mesmo a ingestão direta de concentrações elevadas de ácido (sim, de ácidos!) é capaz de reduzir o pH sanguíneo, é praticamente inconcebível achar que apenas uma alimentação tradicional poderia modificar esse parâmetro de forma significativa”.

Moral da história: a questão não é mais se o limão é capaz de alcalinizar o nosso sangue – o que por si só, conforme explanado, é bastante discutível -, mas, se isso de fato ocorresse, o resultado poderia ser a morte!

Mas por que alguns dizem que é importante manter o sangue alcalino?

Aqui provavelmente ocorreu um engano histórico que se perpetuou. O estudo de células cancerosas mostrou que essas se adaptam bem ao meio ácido, ao contrário das saudáveis. Há indícios de que deve ter sido feita uma conexão frágil, e que não se sustenta, entre “acidez do organismo” e doenças.

No entanto, uma coisa é a célula doente sobreviver em meio ácido; outra, muito diferente, é o meio ácido gerar uma célula doente! De qualquer modo, não há evidências de que uma dieta ácida (alto teor de proteínas) facilite o crescimento de tumores (veja Examining the relationship between diet-induced acidoses and cancer[7]), mesmo porque são as próprias células cancerosas que produzem o meio ácido, e não o contrário!

Desse modo, sob o ponto de vista da dieta alcalina, alcalinizar o sangue supostamente seria algo saudável. No entanto, como já vimos anteriormente, alcalinizar o sangue pode ser fatal! A hipótese da tal dieta simplesmente não se sustenta.

Então, a dieta alcalina é uma enganação?

Depois de tudo que foi dito, você vai achar estranho, mas a dieta alcalina não é uma enganação! As pessoas que a seguem relatam, com frequência, perda real e saudável de peso, aumento da disposição e da boa saúde!

Mas isso não é difícil de explicar: os alimentos que a compõem são basicamente frutas e hortaliças, isto é, trata-se claramente de uma dieta muito saudável. Isso sem falar que sempre é recomendado que essa dieta seja feita acompanhada por frequente atividade física… Ah, então a pessoa passa a ter uma vida saudável e crê que o segredo está no limão? Hum, entranho, não?

O engano principal, na nossa interpretação, está em relacionar a dieta com a questão da alcalinidade, principalmente no que tange a questão central do limão – à qual é dada muita importância -, uma fruta bastante ácida.

Importante que se diga que a Medicina hindu venera o limão, fruta por ela considerada como um alimento fantástico. Pode até ser verdade, mas nossa preocupação, como professores, químicos e cientistas, reside nas pessoas que abandonam tratamentos contra doenças graves – até mesmo o câncer! – focalizando toda a sua esperança no limão e na dieta alcalina! Não faça isso! Nunca abandone um tratamento médico baseado em fatos inconsistentes como esse. Leia mais aqui.

Assim, concluímos que se a pessoa é saudável e faz uso dessa dieta, ela tem, sim, a ganhar. Uma pessoa que se alimenta mal, abusa de fast-food e passa a seguir a dieta, claramente tem muito a ganhar! Mas uma pessoa muito doente que passa a fazer uso da dieta, EM SUBSTITUIÇÃO aos remédios e ao tratamento médico, tem muito, muito a perder. Inclusive a própria vida.

Perguntas

1-) Segundo o texto, pode-se afirmar que:

a) caso nos alimentemos segundo os princípios da dieta alcalina, estaremos livres de doenças graças a uma significativa elevação do pH sanguíneo.
b) dependendo do contexto envolvido, um alimento ácido como o limão, pode, sim, se tornar básico.
c) a medicina tradicional pode ser substituída por tratamentos alternativos com total segurança em toda e qualquer situação.
d) por mais que se varie a dieta, ainda que algumas sejam claramente mais saudáveis do que outras, não se consegue alterar o pH do sangue, visto que a manutenção deste próximo a 7,4 é essencial para a própria manutenção da vida.
e) A dieta alcalina é perigosa e não deve ser seguida, pois inclui alimentos tóxicos em sua composição.

2-) Leia novamente o excerto “Água com gotas de limão”. Por que o uso da conjunção “mas” nesse contexto não faz sentido? Reescreva a frase corrigindo o erro. Qual o outro erro conceitual presente na mesma frase?

3-) O que você entendeu por sistema-tampão?

4-) A concentração de bicarbonato é cerca de dez vezes a concentração de ácido carbônico no sangue. Assim, pode-se dizer que o corpo está naturalmente mais preparado para combater a queda ou a elevação do pH sanguíneo? Explique.

Respostas

1-) Alternativa D.

2-) O limão tem caráter ácido, e por ter caráter ácido reduz o pH das soluções menos ácidas às quais é adicionado. Corrigindo: “o limão, por exemplo, é maravilhoso para reduzir o pH sanguíneo, pois é ácido. No entanto, como vimos, o pH do sangue não pode ser alterado pela dieta, evidenciando outro erro na mesma frase.

3-) Um sistema-tampão é um sistema autorregulador de pH; ele contém as espécies químicas capazes de consumir tanto os íons causadores de acidez quanto os causadores de alcalinidade, amenizando variações bruscas de pH.

4-) Os íons bicarbonato reagem com os íons H3O+(aq) – veja equilíbrio apresentado no texto – que são causadores de acidez; portanto, nosso organismo é naturalmente mais preparado para combater a queda do pH do sangue.

PNLD 2018 | Química Ciscato – Pereira – Chemello  – Proti

A nova coleção valoriza a contextualização, a interdisciplinaridade e a experimentação como formas de conscientizar o aluno sobre a presença da Química no dia a dia. Por isso, os conteúdos tradicionais da disciplina são apresentados por meio de temas bastante significativos para a vida em sociedade, dando ao professor segurança e recursos para um ensino conectado com as expectativas dos alunos e as habilidades para o século XXI.

Confira abaixo mais sobre a coleção inscrita no PNLD 2018:

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Examining the relationshiop between diet-induced acidoses and cancer : https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22853725

The Alkaline Diet: Is There Evidence That an Alkaline pH Diet Benefits Health?https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3195546/

Bischoff WD, et al. The effect of acid ash and alkaline ash foodstuffs on the acid-base equilibrium of man. J Nutr.

Tobey JA. The question of acid and alkali forming Foods. Am J Public Health Nations Health.

Upton PK, L’Estrange JL. Effects of chronic hydrochloric and lactic acid administrations on food intake, blood acid-base balance and bone composition of the rat. Q J Exp Physiol Cogn Med Sci.

Pizzorno J, et al. Diet-induced acidosis: is it real and clinically relevant? Br J Nutr. 2010.

Césio-137: 30 anos da maior tragédia radioativa do Brasil

By | A Química e a vida | One Comment

Em setembro de 1987, os amigos Wagner e Roberto entraram em um prédio abandonado da Santa Casa de Misericórdia em Goiânia (GO). Ali encontraram um equipamento e o levaram de lá cogitando vendê-lo como sucata, já que era pesado e, assim, possivelmente, feito de chumbo. Os dois não sabiam, entretanto, que o aparelho em questão era utilizado em tratamentos de radioterapia, e que possuía em seu interior um composto de césio-137, elemento radioativo, motivo pelo qual havia a importante presença protetora do chumbo.

Com muito esforço, os dois finalmente abriram a cápsula de chumbo onde encontraram um pó branco. Após cinco dias em poder da cápsula, Wagner e Roberto começaram a sentir sintomas tais como enjoo, diarreia, fraqueza, mas não os associaram ao tal pó branco que parecia inocente, semelhante ao sal de cozinha. Decidiram, então, vender a peça para Devair, dono de um ferro velho da cidade. Os empregados de Devair conseguiram desmontar completamente a cápsula de chumbo e guardaram-na em uma prateleira. Já à noite, Devair ficou fascinado pela luz intensa e azulada que provinha da peça. Não passou por sua cabeça, obviamente, que aquele brilho era o prenúncio do maior acidente radioativo em área urbana que o mundo iria presenciar.

Um ano antes, o mundo havia ficado perplexo com o grave acidente na usina nuclear de Chernobyl, localizada na Ucrânia (na época, parte da antiga União Soviética), que transformou Pripyat em uma cidade fantasma até os dias atuais (veja fotos a seguir). No Brasil, no entanto, este acidente parecia uma realidade muito distante até que, um ano depois, o acidente de Goiânia provou o contrário.

Pripyat, cidade próxima à central de Chernobyl, que teve de ser abandonada devido aos perigos da
contaminação radioativa. / Fonte: CISCATO, PEREIRA e CHEMELLO. Química, vol 2, 1ª edição. Editora Moderna, 2015, p. 468.

O pó encontrado dentro da cápsula de chumbo era o cloreto de césio, um sal de fórmula CsCl, em que o isótopo de césio utilizado era altamente radioativo. A sua propriedade de brilhar no escuro chamou a atenção de Devair, que o levou para casa e mostrou a sua família, parentes e amigos. Estes, por sua vez, ao tocarem no pó, involuntariamente espalharam césio radioativo, um vilão invisível, silencioso, mas extremamente perigoso. Devido à alta solubilidade do cloreto de césio em água, o composto radioativo disseminou-se rapidamente nas redondezas da casa de Devair. Com o tempo, as pessoas começaram a adoecer. Desconfiada, a esposa de Devair levou tal cápsula à Vigilância Sanitária da cidade. O médico que a recebeu suspeitou de uma possível atividade radioativa do material e chamou o físico Valter Mendes, que trouxe consigo um contador Geiger, um aparelho medidor de radioatividade. Com a indicação do elevado índice de radioatividade na cápsula, o físico alertou as autoridades, que se articularam rapidamente em uma operação para avaliar a magnitude da contaminação.

As vítimas foram encaminhadas ao estádio olímpico de Goiânia, enquanto um clima de pânico se espalhava pela cidade. Funcionários com roupas de proteção avaliavam se as pessoas estavam contaminadas com material radioativo. Mais de 112 mil pessoas passaram por esta verificação. Nos dias seguintes, as áreas relacionadas com a moradia de Devair foram isoladas, objetos foram confiscados e animais sacrificados. Conforme o tempo passava, outras vítimas sentiam sintomas mais intensos e eram internadas em hospitais. Nas semanas e meses seguintes, instaurou-se no Brasil um ambiente de pânico, medo, preconceito e desinformação. Goianos não conseguiram desembarcar em outros estados. Produtos da cidade não eram vendidos em outros estados: tudo por causa do medo de estarem contaminados. Até os enterros das vítimas, que tiveram seus caixões blindados e cobertos com concreto, sofreram retaliação dos moradores das localidades próximas.

Os objetos pessoais, as ruínas das casas, relíquias de família, animais domésticos, tudo o que constituía o patrimônio das pessoas foi transformado em lixo radioativo e enterrado em um depósito de rejeitos radioativos no Parque Estadual Telma Ortegal – Abadia de Goiás (GO).

Reportagem sobre o acidente em Goiânia com o césio-137.
Fonte: CISCATO, PEREIRA e CHEMELLO. Química, vol 2, 1ª edição.
Editora Moderna, 2015, p. 445.
Local em Abadia de Goiás onde estão armazenados materiais
contaminados pelo césio-137. Os tambores e caixas estão dentro
de um terreno murado e coberto com terra./
Fonte: CISCATO, PEREIRA e CHEMELLO. Química, vol 2, 1ª edição.
Editora Moderna, 2015, p. 471.

É difícil mensurar o número de vítimas, pois, muitas vezes, elas desenvolvem problemas de saúde somente após algum tempo. Logo depois da contaminação, quatro pessoas morreram. A Associação de Vítimas do Césio-137 estima que cerca de 1.600 pessoas tenham sido atingidas pela radiação e que mais de 100 já morreram em decorrência do acidente (Carvalho, 2012). Mas afinal, o que é o Césio-137 e por que ele é tão perigoso? O Césio-137 (137Cs) é um isótopo do elemento Césio que possui comportamento radioativo, isto é, seu núcleo não é estável e, em busca de estabilidade, emite radiação.

Acompanhe o esquema a seguir:

Fonte: <http://www.quimica.net/emiliano/artigos/2010agosto-cesio137.pdf>.
Acesso em abr. 2017.

Após emitir radiação por um tempo determinado, todo o césio transforma-se no elemento bário (número atômico 56). Para se ter uma ideia do tempo que isto demora para acontecer, usa-se um parâmetro chamado meia-vida, que indica quanto tempo determinada quantidade de um elemento radioativo tem sua atividade radioativa diminuída pela metade. No caso do 137Cs, este tempo é de aproximadamente trinta anos, coincidentemente o mesmo tempo que se passou desde o acidente até os dias de hoje. Acompanhe o esquema a seguir que representa os sucessivos decaimentos radioativos do 137Cs.

Representação esquemática de sucessivos decaimentos radioativos do isótopo Cs-137 em função do tempo.
Fonte: CISCATO, PEREIRA e CHEMELLO. Química, vol 2, 1ª edição. Editora Moderna, 2015, p. 439.

Isto significa que não há mais perigo nos rejeitos radioativos gerados a partir do acidente? De forma alguma! Estima-se que para que não haja mais perigo radioativo decorrente do elemento césio, é preciso que se passe cerca de 300 anos, isto é, um período de dez meias-vidas desse elemento (Vieira, 2013).

Na transição entre Césio e Bário, ocorre emissão tipo β (beta) e γ (gama). As partículas β (que podem ser contidas por uma placa metálica, plástica ou de madeira) têm um poder de penetração bem menor do que a radiação γ (que só pode ser barrada por grossas paredes de concreto ou chumbo). Como a radiação γ tem alto poder de penetração, esta é potencialmente mais perigosa que as demais emissões.

Representação esquemática do poder de penetração na matéria das partículas alfa e beta e da radiação gama.
Fonte: CISCATO, PEREIRA e CHEMELLO. Química, vol 2, 1ª edição. Editora Moderna, 2015, p. 431.

Mas como um material tão potencialmente perigoso poderia ser usado em um aparelho destinado ao tratamento de câncer? Quando utilizados adequadamente, os isótopos de elementos radioativos podem ser muito úteis e até salvar vidas. O 137Cs juntamente com o 60Co são muito utilizados na Medicina, principalmente como fonte moderada de raios gamas, usados para a inativação de tumores em seres humanos, aplicado somente nas regiões de interesse. A tabela a seguir relaciona alguns radioisótopos, seus respectivos usos na Medicina e em outras áreas e seus respectivos tempos de meia-vida.

Fonte: MCMURRY, F. Chemistry. 4. ed. Nova Jersey: Prentice Hall, 2004. p. 955.

A radiação γ, devido ao seu alto poder de penetração, interage com os componentes de nosso corpo, produzindo excitação e ionização das suas moléculas. Seria como se, neste texto, a radiação conseguisse arrancar algumas letras e palavras. Dependendo da quantidade e de quais letras ou palavras fossem retiradas, o sentido do texto seria afetado. O mesmo ocorre com nosso corpo: o tempo de exposição e a região afetada determinam a gravidade do caso. Nossas células carregam consigo o DNA, o qual tem o código genético da pessoa. Se esse código é afetado pela radiação, a pessoa pode até não desenvolver nenhuma patologia, mas os filhos desta podem ter, por exemplo, problemas físicos de má formação devido a mutações geradas pela radiação.

Perguntas

1-) O texto cita um período aproximado para que o ambiente contaminado pelo 137Cs seja considerado seguro. Após esse intervalo de tempo, qual será a porcentagem de radiação residual nesse ambiente?

2-) Outra aplicação do 137Cs é no processo de irradiação de alimentos, em que estes são submetidos, já embalados ou não, a uma quantidade controlada de radiação por um tempo predeterminado, visando impedir, principalmente, a multiplicação de bactérias e fungos que causam a deterioração do alimento. Este é um procedimento considerado seguro porque:

a) os alimentos irradiados tornam-se emissores apenas de partículas alfa, que por terem baixo poder de penetração, não são tão perigosas.
b) o nível de radiação nos alimentos irradiados é baixíssima, porque não há formação de isótopos radioativos.
c) os alimentos irradiados ficam impregnados com o elemento bário, resultante da emissão de radiação do 137Cs, o qual é estável e não emite radiação.
d) após a irradiação, os alimentos são condicionados em compartimentos de chumbo e são consumidos somente após um período de dez meias-vidas do 137Cs.

3-) Segundo as informações do texto, qual é a característica do material radioativo encontrado na cápsula de chumbo que permitiu que ele se espalhasse com facilidade pelo ambiente?

Respostas

1-) Após o período de 300 anos, terão se passado dez meias-vidas do 137Cs. Assim, se inicialmente a radiação era de 100%, ao final de dez meias-vidas, teremos:

100% —30 anos — 50% —30 anos — 25% —30 anos — 12,5% —30 anos — 6,25% —30 anos — 3,125% —30 anos — 1,56% —30 anos — 0,78% —30 anos — 0,39% —30 anos — 0,195% —30 anos — 0,0975%

2-) Alternativa (b). O que define um átomo como radioativo é a instabilidade de seu núcleo. A irradiação não é capaz de interagir com os núcleos dos átomos, e, portanto, não é capaz de torná-los instáveis.

3-) Segundo o texto, a propriedade do cloreto de césio que fez com que se disseminasse nas redondezas do local onde a cápsula foi aberta foi sua alta solubilidade em água, sendo disseminado por diferentes locais pela água da chuva, por exemplo.

Escrito pelos autores Emiliano Chemello, Luís Fernando Pereira Patrícia Proti. Todos são autores, juntamente com Alberto Ciscato, da coleção QUÍMICA, da Editora Moderna, inscrita no PNLD 2018.

Emiliano Chemello é Licenciado em Química e Mestre em Ciência e Engenharia de Materiais pela UCS. Professor de química no Ensino Médio e cursos Pré-Vestibulares.

Luís Fernando Pereira é químico industrial formado e licenciado pela USP. Leciona no Curso Intergraus desde 1995. É o químico consultor do programa Bem Estar, da Rede Globo.

Patrícia Proti é bacharel e licenciada em Química pelo IQ-USP. Bolsista FAPESP de Iniciação Científica e Doutorado Direto com projetos desenvolvidos no Laboratório de Química de Peptídeos do IQ-USP. Atualmente leciona na Escola Móbile e no Cursinho Intergraus.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHEMELLO, E. Césio 137: a tragédia radioativa do Brasil Química Virtual, Agosto de 2010. Disponível em <http://www.quimica.net/emiliano/artigos/2010agosto-cesio137.pdf>. Acesso em abr. 2017.

CARVALHO, V. Maior acidente radiológico do mundo completa 25 anos nesta semana. G1 GO, Setembro de 2012. Disponível em <http://g1.globo.com/goias/noticia/2012/09/maior-acidente-radiologico-do-mundo-completa-25-anos-nesta-semana.html>. Acesso em abr. 2017.

VIEIRA, S. A. Césio-137, um drama recontado. Estudos Avançados. Vol.27, nº 77, São Paulo, 2013. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142013000100017>. Acesso em abr. 2017.