Em tempos de crise, ensine a compartilhar!

No post passado, conversamos sobre o custo de adquirir produtos ou pagar por serviços com pouco ou nenhum uso. A conta do desperdício pode ter um grande impacto no orçamento de uma família, principalmente neste momento delicado da economia brasileira, em que os aumentos na conta do supermercado e nos serviços essenciais são fortemente percebidos no nosso dia a dia.

Talvez você já tenha ouvido falar na expressão “crise é sinônimo de oportunidade”. Pois bem, foi exatamente durante a crise de 2008 que a economia compartilhada[1] ganhou mais força. A ideia parte do seguinte princípio: não precisamos possuir tudo que desejamos, só precisamos ter acesso. Voltemos ao caso daquele carro que foi comprado para usar somente aos finais de semana e que custa R$ 155,00 por ocasião de uso ou R$ 8.100 por ano a seu dono[2]. Durante a semana, ele fica parado na garagem, mas poderia muito bem servir aos vizinhos que necessitam de um veículo nos dias úteis, mas que não tem recursos ou interesse em adquirir seu próprio carro. E já que o dono do carro tem despesas para mantê-lo, por que não fazer uma renda extra alugando seu veículo para a vizinhança.

Andy de Santis é autora do livro Lições de Valor e parceira do blog para o tema Educação Financeira

Graças à popularização da internet, este sistema existe e se chama car sharing ou “compartilhamento de carros”. É muito simples: O dono do veículo anuncia o carro em um aplicativo que disponibiliza o anúncio aos interessados que residem nas redondezas. Assim, quem aluga paga menos do que custaria uma locação de automóveis tradicional, o dono do carro faz uma renda extra para custear as despesas de manutenção do veículo, que é utilizado em seu máximo potencial, ou seja, não fica parado na garagem, reduzindo o desperdício e a ociosidade de produtos e serviços. A meu ver, estes já seriam excelentes benefícios da economia compartilhada, pois se todos os carros já fabricados fossem utilizados em seu potencial máximo, não seria necessário extrair tantos recursos do planeta para produzir mais e mais carros novos só para enfeitar as garagens.

Mas além do valor econômico e ecológico de compartilhar, gostaria de destacar o valor social desta prática, que estimula a coletividade, o desapego e a inclusão. Afinal, quando um indivíduo compartilha o que tem com outra pessoa que não tem, mesmo recebendo por isso, viabiliza o acesso coletivo e a circulação de algo que em outro momento seria exclusivo e individual. E aqui usei o exemplo do carro propositalmente, pois trata-se de um símbolo de status e ascensão social nas sociedades ocidentais capitalistas.

[1] Para saber mais sobre economia compartilhada e consumo colaborativo, recomendo o livro “O que é Meu é Seu – Como o Consumo Colaborativo Vai Mudar o Nosso Mundo” de Roo Rogers; Rachel Botsman (Ed. Bookman)

Para além do carro, hoje também é possível compartilhar imóveis, eletrodomésticos e até objetos de uso pessoal. Afinal, quantas vezes você usa sua furadeira em um ano? E seu cortador de grama, batedeira, bicicleta, barraca de acampamento? Hoje existem vários aplicativos que facilitam a vida de quem deseja compartilhar um pouco mais do que apenas fotos de férias e frases feitas nas redes sociais.

Além dos produtos que acumulamos, outra forma de ampliar o patrimônio coletivo de conhecimento é compartilhar nossos saberes e talentos. E neste setor, a internet está repleta de exemplos de instrutores informais, com técnicas e dicas práticas para ensinar quase tudo, desde programações complexas em sistemas até receitas culinárias. Um fenômeno que só cresce e permite que pessoas muito talentosas, mas atualmente excluídas do mercado de trabalho possam gerar renda compartilhando seus conhecimentos.

E falando em compartilhar conhecimentos, que tal abrir um espaço para dialogar com sua turma de alunos sobre talentos e recursos disponíveis e ociosos em suas casas ou em suas mentes? Será que sua escola poderia ser um espaço para despertar nas famílias este potencial muitas vezes adormecido? Quem sabe refletindo sobre talentos e recursos, possamos descobrir maneiras de sair da crise, juntos.

Lições de Valor: Educação Financeira escolar

O livro “Lições de Valor – Educação financeira escolar”, dirigido a alunos do Ensino Fundamental II, estimula a reflexão sobre talentos e recursos que podem trazer realização pessoal, ajudar a refletir sobre a vocação profissional e até mesmo gerar renda. Na unidade 2, “De onde vem o dinheiro”, os alunos são estimulados a pensar em talentos, produtos criados por eles ou objetos que possam ser vendidos, trocados ou compartilhados.

As escolas que adotarem o livro também terão acesso ao portal com textos e planilhas, que ajudarão as famílias e os professores a identificar seus valores pessoais e talentos. Um exemplo de exercício já está disponível aqui para você experimentar.

Eu sou Andyara de Santis Outeiro, autora do livro e estou aqui para dialogar com você sobre os conteúdos da obra e trazer dicas sobre educação financeira para aplicar na escola e na vida. Aproveite o espaço, traga seus dilemas, dúvidas e experiências. Vamos aprender juntos?

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