Carlos Drummond de Andrade: 24 anos da despedida

By 17/08/2011Dicas

Boa tarde, pessoal!

Quando nasci, um anjo torto

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

(Carlos Drummond de Andrade)

O trecho acima é a primeira estrofe de “Poema de Sete Faces”, primeiro poema do livro“Alguma Poesia”, que reúne poemas de Carlos Drummond de Andrade. Esta foi a forma que o autor encontrou de explicar o que é o fazer poético. Como a poesia é o canal de comunicação entre o ser ‘perturbado’ que é o poeta e a realidade. Exatamente por essa visão detalhista e direta que Drummond é consagrado como o maior poeta brasileiro de todos os tempos. Há anos, em 17 de agosto de 1987, perdíamos o nosso mestre da da poesia, aos 84 anos, vítima de uma insuficiência respiratória.

O mineiro de Itabira nasceu em 31 de outubro de 1902 e estudou em colégios jesuítas de Belo Horizonte e do Rio de Janeiro. Desde pequeno seus dotes questionadores e de grande inquietação eram evidentes aos professores. Conta-se que o pequeno Drummond foi expulso do Colégio Anchieta (Nova Friburgo – RJ) por insubordinação mental. Aos 19 anos, já de volta a Belo Horizonte, ele começa a escrever para o Diário de Minas e se relacionar com alguns escritores que apostavam nas ideias modernistas, incentivadas e propostas por Mario de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti Del Picchia.

Paralelo à vida de escritor e jornalista, Drummond se formou em Farmácia em 1925, mas nunca teve muito interesse pela profissão. De fato, ele já havia se apaixonado pelo eterno mundo das letras. Convicto das concepções modernistas, Carlos Drummond de Andrade e outros escritores modernistas fundam A Revista, publicação fundamental para a divulgação do movimento na região.

O contato com os modernistas de São Paulo garantiu a Drummond a publicação de um dos seus mais famosos poemas na Revista de Antropofagia, em 1928. O poema causou um grande furor por conta da simplicidade e da colocação das palavras que mudadas de ordem, mudavam o sentido do texto.

Em 1930, publica sua primeira obra poética “Alguma Poesia” e o poema Sentimental é declamado durante a conferência “Poesia Moderníssima do Brasil”, realizada na Universidade de Coimbra, em Portugal. A poesia brasileira e a figura de Drummond estavam cruzando fronteiras e ganhando projeções mundiais.

Sentimental – Carlos Drummond de Andrade

Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas
e debruçados na mesa todos contemplam
esse romântico trabalho.

Desgraçadamente falta uma letra,
uma letra somente
para acabar teu nome!

– Estás sonhando? Olhe que a sopa esfria!
Eu estava sonhando…
E há em todas as consciências, um cartaz amarelo:
“Nesse país é proibido sonhar.”

 

O diferencial de Drummond

O Modernismo ficou conhecido como um movimento da liberdade. Não havia forma correta de se escrever. Podia-se falar de tudo, como quisesse. Drummond, neste sentido, foi um grande exemplar da filosofia modernista. Não há como definir a temática de Drummond. Desta forma, a melhor forma de entender sua obra, é senti-la. Quando mais se lê, mais se quer ler e tentar extrair alguma lição daqueles versos.

Drummond tinha a capacidade de traduzir eventos corriqueiros, gestos grandiosos, sentimentos singelos e paisagens simples em obras-primas. Neste contexto, Drummond também não ficou de fora da crítica social. Em meados do século XX, com a Segunda Guerra Mundial e a ascensão do nazi-fascismo, o poeta tratou o tema em alguns de seus poemas como é o caso dos livros Sentimento do Mundo e a Rosa do Povo.

Mundo Grande – inserido em Sentimento do Mundo (1940)

“Ó vida futura, nós te criaremos”

Carta a Stalingrado – inserido em A Rosa do Povo (1945)

“Stalingrado…

Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!

O mundo não acabou, pois que entre as ruínas

Outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora

E o halito selvagem da liberdade dilata seus os peitos(…)

A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.

Os telegramas de Moscou repetem Homero.”

As poesias de Drummond muitas vezes remetem ao passado. Sem dúvida, o poeta tende ao saudosismo e ao pessimismo em tentativas, sempre bem-sucedidas, de fazer uma ligação entre o passado e uma realidade presente. Com o passar dos anos e das obras, Drummond deixa a ironia de lado e vai se tornando mais afetuoso, principalmente quando fala sobre a infância e a juventude em Itabira.

Em relação a assuntos subjetivos como religião e o comportamento humano, Drummond questiona a existência de Deus e afirma em suas obras que o homem busca constantemente escapar da solidão e do isolamento. Outra grande preocupação é o tempo passado, o presente (poesia social) e o que esperar do futuro, normalmente mais positivo, como resultado da cooperação entre todos os homens.

Confira uma entrevista concedida por Carlos Drummond de Andrade, falando sobre o seu fazer poético e a evolução de suas obras:

Alvo de admiração infinita, tanto pela obra quanto pelo seu comportamento como escritor, Carlos Drummond de Andrade morreu no Rio de Janeiro RJ, no dia 17 de agosto de 1987, poucos dias após a morte de sua filha única, a cronista Maria Julieta Drummond de Andrade.

Assista à homenagem prestada pelo Jornal Nacional na ocasião de sua morte:


Curiosidades

Além de poeta e jornalista, Carlos Drummond de Andrade foi um exímio contista e cronista. Seu legado conta com mais de 70 livros, trabalhos em quase 20 jornais e revistas e a participação em 11 obras de outros escritores. Sem dúvida, era um apaixonado pela língua e pela escrita. Muitos literatos inclusive afirmam que Drummond não conseguia parar de produzir, obcecadamente.

Porém, engana-se quem pensa que Drummond não era também um leitor de mão cheia. Pedro Drummond, neto do escritor, conta que o avô era uma espécie de arquivista nato e a prova disso é o Dicionário de Pseudônimos Brasileiros, datilografado por Carlos Drummond de Andrade e fruto de sua experiência com a literatura. Na obra, ele associa os nomes verdadeiros, os pseudônimos e os veículos em que eram publicados. E ainda separados em ordem alfabética.

O livro está em exposição na Biblioteca Nacional e os visitantes podem encontrar assinaturas curiosas como a de d. Pedro I em uma carta no Diário do Governo, em 1823: “Anglo-maníaco, e por isso o Constitucional puro”; Gonçalves Dias, em artigos no Correio Mercantil, em 1849: “O gnomo”; ou de José de Alencar, no texto A corte do leão, escrito em 1867: “Um asno”.

Saiba mais

Conhecer a vida e entender qual era o cenário que um autor estava inserido é fundamental para a compreensão dos conteúdos e dos movimentos literários. Sabendo disso, a Editora Moderna se preocupou em criar a coleção Mestres da Literatura e selecionar autores de destaque para criar essas biografias dos nossos maiores gênios.

Carlos Drummond de Andrade – Mestres da literatura

Autor: Antonieta Cunha

Indicação: 6º Ano (EF2), 7º Ano (EF2), 8º Ano (EF2), 9º Ano (EF2)

Tema transversal: Pluralidade Cultural

Formato: 20,50 X 24,00

Número de páginas: 72

 

 

Veja o contexto histórico do Modernismo no Brasil, no Portal Moderna Digital, e saiba mais sobre a primeira e a segunda fase do movimento:

Modernismo – 1ª fase

 

 

 

 

 

 

Modernismo – 2ª fase

 


Join the discussion One Comment

Leave a Reply